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Um prémio Pritzker mais igualitário

Um primeiro olhar sobre a obra construída por Yvonne Farrell e Shelley McNamara no atelier Grafton mostra uma coerência inconfundível. O prémio Pritzker reconheceu assim a arquitectura no feminino. Que seja a sociedade a fazê-lo também, com todo o caminho que falta percorrer.

Com a dupla de arquitectas Yvonne Farrell e Shelley McNamara, que em 2020 recebe o prémio Pritzker, contam-se cinco mulheres distinguidas. Contudo, é preciso lembrar que, se o prémio remonta a 1979, só muito recentemente a arquitectura no feminino começou a ser reconhecida. Só em 2004, na 25.ª edição do prémio, a primeira arquitecta, Zaha Hadid, veria o seu trabalho reconhecido. 

Desde 1979, ano da primeira edição do prémio Pritzker de Arquitectura, muito mudou na sociedade. E o prémio, várias vezes considerado o “Nobel” da arquitectura, tem acompanhado as várias mudanças. A composição do júri — quatro mulheres e quatro homens — pode indicar isso mesmo. Há um espaço que tem sido conquistado de forma activa no mundo das Artes — demonstram-no os movimentos estudantis, as conferências e até mesmo o cinema. 

A imagem dos prémios é inclusivamente posta em causa, quando os premiados têm um comportamento reprovável em questões de género. Veja-se o exemplo de Roman Polanski que recebeu, recentemente, os Césares de melhor realizador e melhor adaptação. Na cerimónia de entrega dos prémios, que corresponde à versão francesa dos Óscares, várias mulheres abandonaram a sala, em protesto, aquando da nomeação. A reacção não se fez esperar, quando até nas ruas de Paris se escreveram mensagens de desaprovação do prémio. 

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Yvonne Farrell e Shelley McNamara DR

É certo que, como em qualquer tendência, vários são os detractores. Ficaram célebres as declarações de Brigitte Bardot, condenando vários movimentos feministas, entre os quais o #metoo, acusando mulheres de procurar protagonismo. Outros detractores lançam a suspeita de que um maior reconhecimento feminino poderia ser pouco meritocrático, fazendo as escolhas baseadas em questões de género e não na qualidade intrínseca do trabalho. Porém, voltando ao mundo da arquitectura, e ao prémio Pritzker em particular, é difícil questionar a qualidade das obras das arquitectas premiadas.

Yvonne Farrell e Shelley McNamara receberam, neste mesmo ano, a Medalha de Ouro do RIBA e foram curadoras da Bienal de Arquitectura de Veneza — formas de reconhecimento que muito poucos arquitectos alcançam. Um primeiro olhar sobre a obra construída pelas arquitectas ao longo de 40 anos no atelier Grafton mostra uma coerência inconfundível. O portfólio inclui edifícios de várias escalas, da pequena casa ao edifício universitário. Há uma rigidez dos ritmos quase monótonos na estrutura e nas fachadas. Mas, ao contrário de outros edifícios, em que essa rigidez cria uma simetria estática, há uma ideia de movimento e de uma permeabilidade entre espaços, seja no interior, seja no exterior dos edifícios. 

A notável coerência revela-se em obras tão diversas como a Escola de Economia da Universidade Luigi Bocconi, em Milão, ou o Urban Institute of Ireland, em Dublin. Ambos os edifícios seguem uma malha aparentemente rígida, como se de um padrão se tratasse. Trata-se de uma malha espacial pensada de forma tão meticulosa que define também as entradas de luz natural e a relação com o espaço exterior. Na Universidade Luigi Bocconi, há uma aparente excepção da malha, numa entrada de luz ao nível do terreno exterior. É como uma janela aberta para as ruas de Milão: não só aproxima o espaço interior e exterior, como também torna os espaços sob o nível do solo mais agradáveis.

Como se pode ver no edifício universitário que Yvonne Farrell e Shelley McNamara conceberam em Kingston, Londres, há uma relação íntima com o espaço público, não só no tratamento da luz natural, mas também na protecção do sol e da chuva. Edifícios assim contribuem para cidades mais generosas. O prémio Pritzker reconheceu assim a arquitectura no feminino. Que seja a sociedade a fazê-lo também, com todo o caminho que falta percorrer. 

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