Opinião

A cidade nos seus três estados

Sendo pujante, a política cultural da Câmara do Porto não é perfeita nem imune à crítica. Sobretudo quando a política – sequestrada pelo spin doctoring – sobreleva o cultural.

1. O conceito de “modernidade líquida” de Zygmunt Bauman, cuja disforia o falecido vereador Paulo Cunha e Silva tinha refundido numa fórmula simultaneamente axiomática e atuante, a “cidade líquida”, caracteriza uma época debilitada pelo desenraizamento e é expressão de um tempo sem espessura, onde tudo se dissolve e se consome no fugaz, onde nada permanece e nada solidifica. Mas a metafórica liquidez não traduzia, para Paulo Cunha e Silva, a erosão dos vínculos, antes o transvase e a confluência, a faculdade de pôr em contacto pessoas, lugares, ideias, objetos e estéticas aparentemente inconciliáveis. Nunca se tratou de deslaçar mas sim de desobstruir. A “cidade líquida” era, no fundo, uma cidade heraclitiana, onde o devir precede o ser, e, por isso, a identidade, impossível de fixar, é uma ilusão que cumpre às obras de arte conjurar e tornar inteligível.

Se olharmos para aquilo que Paulo Cunha e Silva decidiu, programou ou estimulou, percebemos que a sua cidade líquida não foi adversária da cidade sólida, que é a cidade do que fica e do que ficará. Pensemos na renascida Feira do Livro, na Cultura em Expansão, na Galeria Municipal, no Fórum do Futuro ou no próprio Rivoli, resgatado às cinzas e tornado casa eclética e plural pelo seu diretor, Tiago Guedes, e noutras instâncias que o ex-vereador conceptualizou e semeou (como o pólo do Museu da Cidade no Reservatório da Pasteleira) ou – nunca é demais dizê-lo – repescou da governação de Fernando Gomes e de Manuela de Melo. São coisas sólidas, que permanecem: pontos de ancoragem. Pretender que Paulo Cunha e Silva, como pretende Regina Guimarães, nos tomou a todos por néscios e desfigurou propositadamente o conceito de Bauman a fim de perpetrar uma burla intelectual, deslaçar os portuenses uns dos outros e mercantilizar o Porto, evacuando, pelo caminho, os mais desfavorecidos, com o conluio de artistas, sociólogos e demais tropa que Regina Guimarães parece ter na conta de pusilânime ou moralmente corrupta, tem qualquer coisa de alucinação situacionista. Paulo Cunha e Silva fez o que é corriqueiro na história das ideias, da arte e do pensamento: passar um conceito previamente disponível pelo filtro da reflexão subjetiva e tirar de lá outra coisa. A cidade líquida terá, porventura, acumulado alguns limos que carecem de remoção. Mas não foi uma fraude, nem um delírio. Foi antes o exemplo raro de uma teorização da cultura concebida e executada localmente por um intelectual com responsabilidades políticas. Quantas cidades, por esse mundo fora, poderão gabar-se do mesmo?

2. Eis que surgem, porém, escolhos no leito da cidade líquida. Se o veto discricionário da folha de sala do espectáculo Turismo, a pretexto de uma nota de rodapé insultuosa para o antigo vereador, ainda poderá atribuir-se à emoção indignada e circunscrever-se a um erro de julgamento (aquilo a que Aristóteles, na Poética – já que falamos de artes de palco –, designava por hamartia e era causa do infortúnio em algumas tragédias clássicas), os múltiplos relatos ou alegações de ingerência excessiva, pressão e coação que vieram a público nas últimas semanas não foram cabalmente esclarecidos, como se impunha que fossem. Rotular estas práticas de censura será decerto descabido aos olhos dos portugueses que tiveram a sua vida íntima devassada e a sua liberdade de expressão espezinhada pelo Estado Novo há pouco mais de quatro décadas. Mas não querer discuti-las revela sobranceria.

Numa cidade com uma comunidade de criadores muito dependentes de coproduções e encomendas de equipamentos municipais, seria difícil evitar que uma Câmara que reflorestou a paisagem ardida legada por Rui Rio e colocou no cerne da sua estratégia a política cultural, como era aspiração de muitos, acabasse por adquirir um peso desproporcionado, uma hegemonia com efeitos indesejáveis. De resto, a domesticação da cultura, que é consequência da sua institucionalização e profissionalização, não é traço distintivo do Porto mas comum ao conjunto das democracias. E a condição do criador hoje é por isso paradoxal e dilacerante e pode formular-se assim: como preservar a independência na dependência?

Sendo pujante, a política cultural de Rui Moreira não é perfeita nem imune à crítica. Sobretudo quando a política – sequestrada pelo spin doctoring – sobreleva o cultural. Há uma obsessão em abafar o que possa destoar da melodia oficial, bem patente nesse triste caso do “quiosque do piorio”, em S. Lázaro, literalmente demolido. Qualquer controvérsia é suspeita, mal recebida. O autodeslumbramento é indisfarçável. Reconheça-se, todavia, que se é um erro ignorar o mal-estar instalado nos últimos tempos, também seria insólito – e porventura disfuncional – passar da revolta contra a ausência de cultura à revolta contra um excesso de cultura.

Importaria, acima de tudo, que a Câmara, na área da cultura, resistisse à tentação de se transformar num organismo gargantuesco que subsuma ou subalternize os criadores, rochedos da cidade sólida; ou, pior ainda, em concorrente todo-poderoso daqueles que queiram desenvolver as suas criações à margem da estratégia camarária. Rui Moreira, atual responsável pelo pelouro, parece pouco consciente deste risco, quando, perante a polémica, remete para uma relação idílica entre a cidade e o seu teatro municipal. Na literatura latina e renascentista, o idílio era alegoria de uma espécie de utopia cortesã protagonizada por pastores letrados que dialogavam num décor campestre deleitável... Na sua fusão inverosímil do pastoral e do palaciano, o idílio deixava à mostra o seu artificialismo e utopismo estéril. Não era raro, por isso, que as representações idílicas, na poesia como na pintura, dissimulassem presságios da sua própria decomposição...

Rui Moreira ainda vai a tempo de tratar as fissuras destapadas no Rivoli; ou de provar que as acusações de ingerência e coação são inverídicas, ou produto de um excesso de zelo, de uma histeria coletiva, o que for. Mas para isso tem de descer do pedestal e dialogar de boa-fé com os agentes culturais em vez de se escudar na autonomia decisória do diretor do Rivoli, porque quando é a credibilidade institucional do teatro municipal que está em causa o tema é político antes de ser do foro artístico. Caso esse diálogo não aconteça, é provável que os lodos da crispação e da desconfiança comecem lentamente a inquinar a cidade líquida a partir do Rivoli. O Conselho Municipal de Cultura, iniciativa meritória e coerente do Presidente da Câmara, podia ter aqui um papel importante de mediação e distensão. Infelizmente, os últimos dias não foram de bons auspícios: a polémica do Rivoli foi sub-repticiamente enjeitada do debate no seio daquele órgão; e, como se viu na questão do Coliseu, o Conselho foi por duas vezes mobilizado para carimbar a posição predileta do executivo em vez de deliberar sobre o conjunto das soluções publicamente ventiladas para a icónica sala de espetáculos, incluindo a da sua municipalização, não há muito defendida pelo próprio Rui Moreira. A demissão de três conselheiros dos indicados pelo Presidente da Câmara sinaliza o descolamento do décor idílico. Se o Conselho Municipal de Cultura se resumir a coloquiar mansamente sobre posições pré-fabricadas ou sobre o que é consensual, então teremos de concordar com aqueles que não lhe descobrem outro propósito que não o de ornamento, emanação fútil não já da cidade líquida, mas da cidade gasosa.

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