Covid-19 reduz previsões de crescimento da OCDE para 2020

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico prevê agora que crescimento económico seja de 2,4%, face à estimativa de 2,9% há quatro meses, na melhor das hipóteses. Esta não é uma crise que deve ser combatida apenas pelos bancos centrais, mas pelos governos, defendeu hoje a OCDE

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Reuters/KIM KYUNG-HOON

Nenhuma delas é a pior previsão possível, sublinhou hoje Laurence Boone, economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), mas variam entre a “melhor” – se o novo coronavírus SARS-CoV-2 (na origem da doença Covid-19)​ ficar essencialmente contido à China e aos focos já conhecidos – ou a mais grave, se se estender de forma mais global.

Na hipótese de “melhor cenário”, terminada no “início da semana passada”, explicou esta manhã Laurence Boone em conferência de imprensa, o crescimento económico global leva um corte de 0,5% (ou 200 mil milhões de dólares) para 2,4% (face a 2,9% em 2019, que era o mesmo crescimento previsto para organização, em Novembro passado, para 2020). Neste quadro previsional, o crescimento será de 3,3% em 2021 (um pouco acima dos 3,1% esperados em Novembro) disse a economista-chefe da OCDE, estimando a organização que, nesta visão, todo os impactos comecem gradualmente a diluir-se no início do próximo ano.

Um cenário que corta o crescimento económico mundial em 0,5% implica uma quebra de 4% da procura interna na China e Hong Kong no primeiro trimestre deste ano, a que se juntam mais 2% no segundo trimestre. E, globalmente, uma quebra de 10% nos mercados e nas matérias-primas não alimentares no primeiro semestre de 2020, explica a OCDE.

Nesta leitura, o crescimento da zona euro será de 0,8%, mantendo-se de 1,2% em 2021, baixando da anterior previsão da OCDE, de 1,1%. As previsões da OCDE ficam piores para a França (cresce 0,9% em 2020, face a 1,3% em 2019 e face aos 1,2% previstos em Novembro para este ano) e Itália (estagnação a 0% face a uma crescimento de 0,2% em 2019 e um corte face aos 0,4% que a OCDE previra há quatro meses). Para a Alemanha a previsão é de 0,3% em 2020, face a 0,6% em 2019. Em Novembro de 2019, a OCDE estimava que a economia germânica iria crescer 0,4% este ano. 

Na China, o crescimento previsto para 2020 é de 4,9%, quando em 2019 foi de 6,1%. Aqui, o corte da previsão entre Novembro e hoje é de 0,8 pontos percentuais. 

O cenário mais grave

No cenário mais pessimista, de efeito “dominó” – sendo que “este não é o pior cenário possível”, frisou esta manhã Laurence Boone, que contornou todas as questões directas sobre a possibilidade de uma potencial recessão a curto prazo, global ou por países – o impacto no PIB mundial será de 1,5%. Isto é, lembrou a economista-chefe da OCDE “quase metade do crescimento económico [global] previsto [pela OCDE] há quatro meses”. Nessa altura, como já referido, a previsão era que em 2020 o crescimento global fosse de 2,9%.

Neste cenário, além da previsão de redução da procura interna da China, na mesma ordem que o cenário “mais optimista”, junta-se uma extensão a outras regiões: uma diminuição de “mais de 2% na procura na maioria dos países da Ásia-Pacífico” e nas economias mais desenvolvidas no hemisfério Norte durante o segundo trimestre deste ano, com uma quebra de 20% no mercado de capitais e no preço das matérias-primas não alimentares, a par de “um aumento de 50 pontos base no prémio de risco no investimento em todos os países”.

Este não é um combate só para os bancos centrais

A OCDE está particularmente preocupada com o “choque de confiança” nos mercados mundiais, reflectido na semana passada nas principais – se não todas – praças da Ásia, Europa e EUA.

E esse, defendeu esta segunda-feira Laurence Boone, “não é um choque que pode ser enfrentado somente pelos bancos centrais”. Há que, afirmou a economista-chefe da organização: lidar e aumentar a confiança no mercado de capitais. “Esta não é uma crise que possa ser combatida pelos bancos centrais, mas pelas autoridades orçamentais”.

Os governos “devem agir agora para restringir o avanço do [novo] coronavírus, proteger as populações e os negócios dos seus efeitos e apoiar a procura económica”, aconselha a organização. 

“Há muita coisa que os Governos podem fazer pelas pessoas”, disse Laurence Boone, enquanto apresentada o power point aos jornalistas por videoconferência. E, depois da página com o título “os Governos devem actuar agora”, enumerou as medidas possíveis. Para a população em geral: “aumentar os recursos para o sector da saúde”, “financiar temporariamente para famílias mais vulneráveis”, “expandir modelos temporários de trabalho”.

No caso das empresas, as sugestões da OCDE para os governos mundiais lidarem com o novo coronavírus passa por “reduzir ou adiar cobranças fiscais para os sectores mais afectados”; “aumentar a liquidez e disponibilidade de crédito às empresas”, e “reduzir as dívidas do Estado ao sector empresarial”.

Em termos macroeconómicos, a OCDE deixa também um mini-guião: “aumentar a liquidez à banca”, garantir que a política monetária tem uma resposta adequada “às condições de mercado extremas”; “permitir que estabilizadores automáticos funcionem completamente” e “aumentar o investimento público”.

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