Presidente do Afeganistão rejeita libertar prisioneiros taliban

Troca de presos foi decidida no acordo assinado entre os EUA e o grupo islamista radical. Ashraf Ghani diz que “os Estados Unidos não têm autoridade para decidir, são apenas um facilitador” no processo aberto para existir paz no país em guerra há 18 anos.

Marcus Antonius
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Ashraf Ghani Reuters/OMAR SOBHANI

O Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, rejeitou neste domingo a exigência de libertar cinco mil prisioneiros taliban como condição para o início de conversações entre as suas partes, com consta do acordo assinado no sábado entre os Estados Unidos e o grupo islamista radical

“O Governo do Afeganistão não se comprometeu com a libertação de cinco mil taliban”, disse Ghani aos jornalistas em Cabul no dia a seguir à assinatura, no Qatar, do acordo entre o Governo dos Estados Unidos e os taliban e que foi visto como a abertura do caminho para a retirada das tropas americanas no país.

Segundo diplomatas ocidentais, as suas palavras mostram as dificuldades que enfrentam os negociadores que tentam abrir caminho a conversações directas entre o Governo afegão e os islamistas.

O acordo diz que os EUA e o grupo Taliban estão comprometidos em trabalhar para a libertação de prisioneiros como medida de confiança, com a coordenação e aprovação de todas as partes.

Diz que cinco mil prisioneiros seriam libertados e trocados por mil afegãos capturados pelos taliban até ao dia 10 de Março.

Porém, sobre esta troca de prisioneiros, Ghani disse: “Os Estados Unidos não têm autoridade para decidir, eles são apenas um facilitador” neste processo.

O acordo foi assinado no sábado pelo enviado especial dos EUA, Zalmay Khalilzad, pelo chefe político dos Taliban, o mullah Abdul Ghani Baradar, e a cerimónia foi testemunhada pelo secretário de Estado Mike Pompeo.

Depois da cerimónia, Baradar encontrou-se com ministros da Noruega, Turquia e Uzbequistão, assim como com diplomatas russos, indonésios e de países vizinhos do Qatar. Um acto destinado a assegurar legitimidade internacional ao grupo.

“Os dignitários que se encontraram com o mullah Baradar expressaram o seu compromisso a reconstrução e desenvolvimento do Afeganistão”, disse o porta-voz taliban, Zabiullah Mujahid.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou críticas ao acordo e disse que, num futuro próximo, vai reunir com os líderes taliban. Os conselheiros de Ghani disseram que esta ideia de Trump constitui um desafio ao Governo afegão num momento em que a retirada das tropas americanas, previstas no acordo, está iminente.

Segundo o acordo, Washington vai começar a reduzir os seus efectivos no Afeganistão de 13 mil para 8700 nos próximos 135 dias. E os EUA vão começar a trabalhar com os aliados para reduzir o número de forças da coligação no país nesse mesmo período, se os taliban cumprirem as condições de segurança com que se comprometeram e o cessar-fogo.

A retirada total das tropas americanas deve ocorrer nos próximos 14 meses. Mas esta retirada depende das garantias dos taliban que governaram o Afeganistão entre 1996 e 2001, aplicando uma interpretação estricta da sharia (a lei islâmica), que impõe restrições drásticas às mulheres e proíbe todas as actividades consideradas não islâmicas. 

Depostos em 2001, o movimento Taliban deu início a uma violenta campanha armada. A guerra no Afeganistão dura há 18 anos, com os taliban a progredirem no terreno, mas incapazes de capturar as grande cidades.

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