Na estátua das carquejeiras cabe o pedido de perdão de uma cidade

Subiam uma íngreme calçada com dezenas de quilos às costas e calcorreavam a cidade. Invisíveis ao Porto burguês, num trabalho quase escravo, levavam acendalha para padarias e aquecimento para as casas. Este domingo, cinco anos depois do sonho de uma associação, a cidade homenageia as suas mulheres de ferro.

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Quem as via subir a íngreme calçada, com passo arrastado e em ziguezague, vergadas sob um peso absurdo de molhos de carqueja, nem sempre compreendia quanto sofrimento havia naquelas mulheres. Carlos Nélson teria uns oito anos e ia “Corticeira abaixo” sentado em tábuas humedecidas com azeite, cruzando o caminho das carquejeiras e puxando-lhes as saias compridas numa brincadeira pueril. “Quem diria que, tantos anos depois, ia prestar homenagem a estas guerreiras…”. A frase embacia os olhos azuis do homem, “apegado às pedras” que o viram nascer há 66 anos. À sua frente, uma grua pousa a estátua das carquejeiras na Alameda das Fontainhas, onde será inaugurada este domingo às 10h40. Uma homenagem às “mulheres de ferro” a quem o Porto muito deve e quase nada deu, meio século depois de o ofício se ter extinguido.