Trambolhão colectivo não elimina méritos na Europa

Portugal não tinha quatro equipas riscadas dos 16 avos-de-final da UEFA desde finais dos anos 70, mas não via também um quarteto atingir esta fase desde 2011. Ranking melhorou, com pontuação acima da média.

Foto
LUSA/HUGO DELGADO

O país futebolístico despertou com preocupantes sintomas de uma inquietação a resvalar para a depressão, tal o impacto da derrocada que arrastou Benfica, FC Porto, Sporting e Sp. Braga e arrasou por completo o sonho europeu. Apesar da desilusão colectiva, nas provas da UEFA esta foi a terceira melhor prestação de Portugal nos últimos sete anos, sendo que, com 10,3 pontos somados, ficou bem acima da média registada no presente século.

Atendendo às expectativas geradas, com a eliminatória em aberto para as quatro equipas portuguesas em prova após os jogos da primeira mão, a Liga Europa foi madrasta e, pela primeira vez desde o final da década de 1970, quando as competições europeias tinham diferentes designações e formatos, Portugal voltou a sair de cena de uma assentada às portas dos oitavos-de-final. Curiosamente, com os mesmos quatro protagonistas, embora desta feita concorressem todos na mesma “Liga”, uma espécie de parente menos abastado das competições da UEFA.

A eliminação “sincronizada” de Sp. Braga, FC Porto, Sporting e Benfica, — por esta ordem cronológica — no intervalo de 24 horas, acendeu o rastilho de mais um debate inadiável em torno do futebol português. O golpe foi, na verdade, especialmente duro, por haver evidências de uma saúde férrea numa temporada em que Portugal recuperou o orgulho beliscado pelos russos, resgatando o sexto lugar da UEFA logo a seguir às cinco Ligas mais fortes. 

Em bom rigor, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e França estão fora do alcance de uma segunda linha de nações lideradas pelos portugueses, com Rússia, Bélgica, Holanda e Ucrânia a formarem o segundo pelotão.

Perder, assim, de uma assentada, todos os representantes é fenómeno raro, como atesta a história. Mas o trauma provocado por este trambolhão inesperado, quando pareciam estar reunidas as condições necessárias para marcar uma posição de força na UEFA, não pode ofuscar os méritos de que, globalmente, os clubes portugueses são credores. 

Numa comparação sustentada exclusivamente em números e factos, percebe-se com clareza a dimensão do “acidente” luso, já que dos escombros da última ronda da Liga Europa emerge o quinto melhor desempenho entre todos os países, na presente edição, inclusive à frente da França, com uma pontuação de 10,3 — sétimo melhor registo nacional do século XXI, período em que a média se situa nos 9,7 pontos. 

Este parece, de resto, um caso típico de copo meio vazio e meio cheio, já que Portugal ocupava até agora uma posição invejável, que obriga a recuar quase uma década (2010-11) para encontrar paralelo no número de clubes presentes nos 16 avos-de-final da Liga Europa. Essa foi, de resto, uma edição de excepção, em que só o Sporting cedeu (frente ao Rangers), tendo Benfica, Sp. Braga e FC Porto atingido as meias-finais que produziram uma final 100% portuguesa, com os “dragões” a baterem os minhotos, em Dublin. 

A temporada 2010-11 (com 18,8 pontos) estabeleceu um recorde ímpar e dificilmente igualável em 20 anos marcados por um contributo assinalável do FC Porto, cujo último desempenho (oito pontos) deixou bastante a desejar, cifrando-se mesmo como o mais modesto das equipas portuguesas em competição. O V. Guimarães contribuiu para o ranking com 9,5, Benfica e Sporting acumularam 10 pontos e o Sp. Braga foi o mais bem sucedido, com 14 — os minhotos arrecadaram cerca de 10,2 milhões de euros nesta campanha.

Este percalço colectivo impede que Portugal se distancie ainda mais da Rússia no ranking (são 49,449 contra 45,549 pontos), mas não invalida que, dentro de duas temporadas, em 2021-22, o futebol nacional volte a contar com duas entradas directas na Liga dos Campeões, às quais se soma mais uma equipa na terceira pré-eliminatória da prova.