Opinião

O impacto psicológico do coronavírus

Todas estas medidas de contenção são reportadas incessantemente pelos órgãos de comunicação social. E bem. É importante que saibamos o que se está a passar. Contudo, esta exposição constante pode ter consequências menos positivas.

A 31 de Dezembro a China alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre vários casos de gripe em Wuhan, capital da província de Hubei, na China Central, com 11 milhões de habitantes. Os pacientes foram colocados em quarentena e as autoridades de saúde começaram a trabalhar para rastrear a fonte da gripe. A 7 de Janeiro foi identificado um tipo de coronavírus designado de 2019-nCoV, posteriormente baptizado de Covid-19 pela OMS. A primeira morte foi reportada na China a 11 de Janeiro.

Em apenas quatro dias a Itália registou 11 mortes e o número de casos aumentou exponencialmente. As notícias dão-nos agora conta de cidades em quarentena, eventos cancelados, voos e transportes suspensos e de várias pessoas subitamente colocadas em isolamento em hotéis e navios. Todas estas medidas de contenção são reportadas incessantemente pelos órgãos de comunicação social. E bem. É importante que saibamos o que se está a passar. Contudo, esta exposição constante pode ter consequências menos positivas.

O nosso cérebro está preparado para reagir de uma certa maneira quando vivenciamos situações de stress ou incerteza intensa. A parte racional do nosso cérebro é facilmente ultrapassada pelo sistema emocional podendo resultar em pânico e comportamento de grupo irracional. Este é um fenómeno conhecido como modo de sobrevivência com três reacções instintivas: luta, bloqueio ou fuga. Ou atacamos, ou paralisamos ou fugimos. Trata-se de um instinto impulsionado pela necessidade de autopreservação. Estes instintos remontam a tempos em que estar constantemente alerta para identificar o perigo era essencial para sobreviver. Os mesmos instintos primitivos fazem ainda parte da nossa essência humana e são activados quando vivemos uma situação de crise.

A preocupação com a nossa saúde e com a economia em geral é legítima. Contudo, é fundamental estarmos atentos ao nosso funcionamento psicológico para evitarmos causar mais danos a nós e aos outros.

A percepção de ameaça do coronavírus pode levar-nos a comportamentos irracionais e causar ainda mais dano. Na Ucrânia, um autocarro com pessoas suspeitas de contaminação foi apedrejado. O termo ‘suspeito’ é já de si ameaçador. Existem relatos de que cidadãos chineses, ou descendentes de chineses, estão a ser discriminados um pouco por todo o mundo. As vendas de máscaras de protecção e de gel desinfectante atingem valores recorde e começam a faltar alimentos em alguns locais.

No entanto, apesar de estarmos programados para a autopreservação, existe bastante evidência de que em tempos de crise as pessoas também são capazes de responder de maneira ajustada e pró-social. É importante analisarmos os nossos sentimentos de desconforto, de medo ou ansiedade relacionados com o coronavírus e procurar aliviá-los.

Há que manter as coisas em perspectiva. O fato de haver uma grande quantidade de notícias sobre este assunto não significa necessariamente que ele represente uma ameaça imediata para nós ou para a nossa família. Contudo, podemos a qualquer momento ser confrontados com esta situação e ser solicitados a permanecer em isolamento, por exemplo. Importa perceber que a colaboração com os profissionais de saúde será a melhor forma de nos protegermos e àqueles que nos são próximos.

Mantermo-nos conectados e compartilhar informações úteis com amigos e familiares pode ajudar a lidar com a ansiedade. É importante prestar particular atenção às crianças, aos idosos e aos mais vulneráveis. Discutir com eles a cobertura noticiosa do coronavírus com informações sinceras e adequadas à idade. Convém não esquecer que as crianças procuram pistas sobre como gerir os seus próprios sentimentos observando os adultos.

É importante ser um modelo calmo e sereno, mas simultaneamente sincero. Há ainda muita incerteza sobre o que poderá acontecer e não devemos ter receio de dizer – “não sei, mas vou tentar saber”. Portugal estará tão preparado quanto poderia estar para uma situação destas e este não será o momento para reclamar mais recursos ou alarmar a população. Este é o momento para gerir a situação com confiança, serenidade e cooperação com as autoridades de saúde pública.

Procuremos obter as informações de que precisamos junto de fontes credíveis e confiáveis como o site da DGS (www.dgs.pt) ou o médico de família. A verificação de factos pode ajudar especialmente quando nos sentimos sobrecarregados com inconsistências nas notícias. Sejamos cuidadosos na escolha de informações, em vez de sermos consumidos por actualizações e notificações imprecisas ou alarmistas causadas em grande parte pelo medo e pânico.

Vamos proteger a nossa saúde física, mas não deixemos de cuidar da nossa saúde mental e da comunidade em que vivemos.

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