Opinião

Feel the Bern

Sanders pode vencer Trump? É o único com condições para isso por representar alguém contra o sistema que Trump representa e que o criou.

“A coligação multigeracional e multirracial não só ganhou no Nevada, como também vai arrasar em todo o país” – foi esta a frase de vitória de Bernie Sanders após serem conhecidos os resultados das eleições primárias do Partido Democrata no Estado do Nevada. Depois do desastre da governação de Trump, há uma alternativa que se levanta, capaz de vencer e conquistar o futuro. Nas vésperas de uma semana fundamental para as escolhas do Partido Democrata, há um senador de 78 anos que finta todos os prognósticos e previsões e se coloca como o principal opositor de Donald Trump.

É verdade que os meandros do Partido Democrata parecem insondáveis a muitos de nós. A trapalhada das primárias no Iowa é a ponta do icebergue de um partido em crise de identidade, em que a elite histórica está em conflito com a base social de apoio. Esta constatação poderia explicar a ascensão de Bernie Sanders, mas as raízes deste movimento transformador são bem mais profundas. Aliás, só isso esclarece como alguém que passou décadas a criticar o Partido Democrata se perfile agora como uma das principais figuras para liderar a candidatura presidencial.

Quatro anos de Trump é um pesadelo para o mundo. Pensar que pode haver uma segunda temporada desta série de terror é motivo para assustar qualquer um. No entanto, se alguém acha que a necessidade aguça o engenho, desengane-se quanto ao establishment do Partido Democrata. É por isso que o processo das eleições primárias começou sob um sentimento de desalento. Comentadores e analistas descartavam as candidaturas dos outsiders: Joe Biden era o favorito mas sem aquecer corações, Michael Bloomberg poderia cometer a excentricidade de entrar na corrida mas também não animava as hostes, e até mesmo à mirabolante hipótese do regresso de Hillary Clinton era dada mais credibilidade do que à candidatura de Bernie Sanders. Nas diversas opiniões, qualquer uma das soluções levava a uma situação que não ameaçava a reeleição de Trump.

O ceticismo com que a candidatura de Bernie Sanders era tratada ficará para a história: começava na provecta idade, passava pelo ataque cardíaco que sofreu em outubro passado, e terminava sempre na impossibilidade de alguém que se diz socialista poder disputar uma maioria num país como os EUA. De fora ficava quase sempre o programa eleitoral e as ideias estruturantes da campanha (saúde pública para todos, fim das propinas nas faculdades públicas, investimento para uma economia ambientalmente sustentável, salário mínimo de 15 dólares por hora, fortalecimento dos sindicatos e dos direitos laborais) por ser demasiado radical e esquerdista num país onde estas ideias não fariam caminho. Para prognósticos destes mostra a realidade que é mesmo preciso esperar pelo fim do jogo.

Sanders está a provar que é mesmo possível ter uma candidatura do povo, que as pessoas se mobilizam por melhores direitos e serviços públicos. Enquanto outros candidatos se desdobram em iniciativas para convencer doadores milionários a patrocinarem as respetivas campanhas (ou Bloomberg desembolsa centenas de milhões de dólares da sua fortuna pessoal), Bernie juntou 100 milhões de dólares com pequenos donativos, em média de 18 dólares, o que mostra a dimensão popular desta campanha. Há política para lá das caducas máquinas partidárias ou das análises políticas formatadas.

A candidatura de Bernie Sanders vem de fora da caixa. Em primeiro lugar da caixa do Partido Democrata, cuja elite se sente ameaçada com a ascensão desta alternativa política mais à esquerda. Os mesmos que se uniram há quatro anos para tramar Sanders não desapareceram e permanecem um perigo, com uma campanha de descredibilização que pode muito bem beneficiar futuramente Donald Trump. Por outro lado, é uma candidatura que representa um grito de revolta para com as desigualdades gritantes, as políticas de muros e barreiras e a exclusão social, e confronta os gastos em armamento ou as benesses do sistema financeiro com o que falta na construção de serviços públicos de qualidade ou no acesso a direitos fundamentais.

Será que Sanders pode vencer Trump? Acho que é o único que tem condições para isso por representar alguém contra o sistema que Trump representa e que o criou.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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