Torne-se perito

Plantações de olival e amendoal já ocupam quase 80.000 hectares do regadio de Alqueva

Restrições no acesso à água impostas há um ano não travaram a instalação de novos olivais e amendoais. Nem os povoamentos de montado escapam à instalação de novas plantações.

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Miguel Manso

As culturas de olival (66.327 hectares) e amendoal (11.448 hectares) ocupavam no final de 2019 quase 75% da área inscrita para rega no perímetro do Alqueva, (96.000 hectares). Os números que vêm publicados no Anuário Agrícola de Alqueva de 2019 e publicado pela Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA) reafirmam o peso absoluto das culturas de olival e amendoal na dinâmica agrícola que continua a ser determinante nos blocos de rega.

Entre 2018 e 2019 a plantação de olival teve um crescimento de 14.000 hectares, a uma média superior a mil hectares por mês e num contexto de restrições no acesso à água do Alqueva. Em Fevereiro de 2019, a EDIA, através de aviso, notificou “todos os beneficiários e potenciais interessados” que o fornecimento de água a “título precário”, ou seja, a todos os agricultores que têm as suas explorações fora dos blocos de rega do empreendimento, passaria a estar sujeito a restrições. De fora ficava a autorização para o fornecimento de água a novas culturas permanentes e de alto rendimento como o olival, amendoal, vinha e árvores de fruto. Qualquer agricultor interessado em investir em áreas localizadas fora das manchas de rega teria de previamente obter autorização da EDIA.

Um ano após a publicação do aviso da EDIA, continua a assistir-se à plantação de novos olivais e amendoais, dentro e fora dos blocos de rega do Alqueva. Por se tratar de culturas de alto rendimento, já se arrancam plantações de olival intensivo para o substituir pelo modo superintensivo e ocupam-se com oliveiras áreas ocupadas por povoamentos de montado de sobro e azinho. Desta forma, em apenas quatro anos, a plantação de olival passou dos 26.673 hectares no final de 2015, para os 66.327 hectares no final de 2019.

O resultado desta intensificação cultural observou-se no surpreendente aumento de 25% na produção de azeitona para a campanha de 2019/2020. Deverá chegar quase a um milhão de toneladas, conforme previsão do Instituto Nacional de Estatística (INE).

A par da fileira olivícola, a área de frutos secos tem aumentado significativamente na área de influência de Alqueva, “com o desenvolvimento, predominantemente, de projectos de amendoeiras”, destaca o anuário agrícola.

Amendoal em crescendo

Em Abril de 2016, o PÚBLICO transcrevia a previsão do presidente da EDIA, José Pedro Salema: “Dentro de três anos estarão plantados nos novos blocos de rega cerca sete mil hectares [desta cultura de frutos secos].” Pecou por defeito. Em relação aos números de 2015, o amendoal em Alqueva passou dos pouco mais de 975 hectares para os 11.448 hectares, mais 4500 que a área prevista para 2019.

Como já tinha acontecido com a fileira olivícola, o investimento espanhol “é o principal responsável pela área de amendoal em Alqueva”, refere o anuário agrícola. Este facto explica-se, em parte, pela “ligação do investimento em amendoal ao investimento em olival em sebe”, em que também o investimento espanhol tem um peso importante, descreve o documento da EDIA. Acrescenta que o ano de 2019 pode ser considerado o ano de “afirmação da cultura da amêndoa, em regadio, no Alentejo”. Vários amendoais em sebe ou em copa já ultrapassaram os 2000 quilos de miolo por hectare. Tanto nos Estados Unidos como na Austrália, as plantações tem produções que oscilam entre os 2000 e 3000 quilos por hectare. Em Espanha a média é de 150 quilos. Nos amendoais de sequeiro, que é o caso do Algarve e de outros locais no país, a produção média ronda os 15 quilos por hectare.

Neste momento, 53% das explorações de amêndoa estão nas mãos de empresas ou agricultores espanhóis, seguindo-se os portugueses, com 32% ,e os EUA, com 12%.

As culturas de olival e amêndoa não são as únicas que aumentaram a sua plantação. O milho, com 6.245 hectares de área cultivada, superou os 6.055 hectares registados como recorde em 2013, o mesmo acontecendo com a produção de uva que alcançou os 5.826 hectares superando 2015 quando atingiu os 3.987 hectares. Culturas anuais de regadio, como é o caso da colza, cevada, girassol e horto-industriais, também aumentaram a sua área.

Para além do olival e amendoal, as outras cerca de 40 culturas instaladas nos perímetros de rega do Alqueva ocuparam em 2019 uma área com 26.000 hectares. E o espaço destinado a novas culturas começa a ser preenchido, embora de modo residual, com plantações de morango (2,5 hectares), mirtilo (4 hectares), bambu (14 hectares), pistacho (1,2 hectares) e figueira-da-índia (13 hectares). As plantações de cânhamo, abacate, algodão estão em fase de projecto. Entretanto prepara-se introdução de cannabis, que vem substituir a cultura de papoila branca destinada à produção de morfina. Deixou os campos do Alqueva, cinco anos depois de ter sido iniciada a sua exploração. O excesso de oferta deste produto no mercado mundial ditou o fim do investimento em Portugal.

Já se encontram no terreno projectos relacionados com esta cultura, nomeadamente na região de Aljustrel e Beja. A EDIA refere que “continua a receber solicitações” de diversas empresas, quer nacionais quer estrangeiras, sobre a possibilidade de instalar campos e estufas de canábis na região. Neste momento em fase mais avançada e já com experimentação no campo existe o investimento da empresa Rpk Biopharma que já criou estruturas de apoio para os 65 hectares de canábis ao ar livre e ainda pretende construir uma unidade de transformação para a produção de óleo de canábis. 

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