Bruno de Carvalho, em tribunal, atira-se a William e Jesus

O ex-presidente do Sporting está a ser ouvido no Tribunal de Monsanto sobre o caso do ataque à Academia de Alcochete

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Bruno de Carvalho LUSA/MÁRIO CRUZ
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,Academia Sporting Clube de Portugal
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Bruno de Carvalho LUSA/MÁRIO CRUZ

Bruno de Carvalho, ex-presidente do Sporting, foi nesta sexta-feira a ser ouvido no Tribunal de Monsanto, em Lisboa, no âmbito do julgamento do ataque à Academia do clube, em Alcochete. Durante um pouco mais de duas horas, o antigo homem forte dos “leões” foi dando a sua versão dos factos, não tendo apresentado nenhuma novidade. Durante o seu depoimento, o ex-jogador sportinguista William Carvalho e o antigo técnico da equipa, Jorge Jesus, foram os principais visados. As alegações finais do julgamento ficaram agendadas para 11 de Março.

Perante a juíza, o antigo líder “leonino” começou por afirmar não perceber por que razão se encontra na qualidade de arguido e quando foi questionado pela juíza sobre quando teve conhecimento do ataque Bruno de Carvalho repetiu o que já tinha dito antes: “Quando estava em Alvalade, numa reunião. O José Ribeiro [responsável pela comunicação do Sporting] foi interromper a reunião. Não tinha conhecimento de nada de nada.”

Em relação aos insultos contra os jogadores do Sporting, no Funchal, após a derrota da equipa frente ao Marítimo, Bruno de Carvalho disse que tomou conhecimento deles em casa. “Soube pelas imagens da televisão. Soube em minha casa, porque foi transmitido em directo”, declarou.

De seguida, o ex-líder sportinguista revelou a grande proximidade que existia entre alguns elementos da equipa e membros da claque, dando o exemplo de William Carvalho. “O William Carvalho quando saía à noite e se metia em problemas, o que era comum, a quem é que ligavam? A membros da claque. Havia um grande grau de intimidade entre estas pessoas. Nesta perspectiva, aquilo que se passou no aeroporto da Madeira era normal”, explicou Bruno de Carvalho.

O ex-presidente do Sporting empurrou para Jorge Jesus a responsabilidade de as claques terem ganhado o hábito de irem a Alcochete: “O grande mal foi, em 2017, o senhor Jorge Jesus ter autorizado nas minhas costas a ida da Juventude Leonina a Alcochete. No meu mandato aconteceu uma vez e foi sem minha autorização.”

A embriaguez de Fernando Mendes

Confrontado com o telefonema de Fernando Mendes, ex-presidente da “Juve Leo”, Bruno de Carvalho desvalorizou-o, dizendo que não havia nenhuma relação de grande proximidade entre ambos.  “Nós nunca gostámos um do outro, mas tínhamos essa relação de tolerância. Foi a primeira vez que Fernando Mendes me ligou. Eu tinha uma bebé ao lado que estava a morrer. Não consegui falar com a pessoa que tinha criado problemas no aeroporto da Madeira, talvez por ele estar muito embriagado. Tirei a ilacção de que eram muito mais problemas internos da Juve Leo do que o tinha acontecido ou deixado de acontecer na Madeira”, disse Bruno de Carvalho à juíza.

E acrescentou em relação ao um outro telefonema de Fernando Mendes: “Só falava do Mustafá, do Mustafá, [líder] da Juventude Leonina e não passava disso. Entra num delírio sobre as informações da polícia sobre a entrada da extrema direita na Juventude Leonina.”

Bruno de Carvalho revela ainda o que perguntou aos jogadores na reunião que decorreu, em Alvalade, após a derrota no Funchal. “Perguntei ao Acuña o que se tinha passado. E vejo o Acuña, o Battaglia e o William muito despreocupados. Criou-se a narrativa no tribunal de que na reunião o presidente estava extremamente alterado, quando o capitão principal [William] se recusa a tratar-me por presidente e me tratou três ou quatro vezes por você. Depois fala o Bas Dost, normal, sobre o post. Depois aparece o William, vindo do nada, a acusar-me de ter dito às claques para partir os carros e para bater nos jogadores,” declarou Bruno de Carvalho.

A reunião na “casinha"

Já sobre a reunião na casinha da “Juve Leo” o antigo líder sportinguista explicou à juíza que não queria ir, mas que tinha sido André Geraldes, então manager da equipa, a insistir para que ele fosse. Bruno de Carvalho diz que recusou várias vezes, por causa da saúde da filha, mas acabou por ir: “Aquilo eram dezenas de pessoas aos gritos. Tentaram agredir-me, só não me chamaram de santo. Não teve a ponta por onde se lhe pegue. Eram pessoas aos gritos, pessoas a fumar charros, não se percebia nada. Não ouvi absolutamente ninguém a dizer que ia à Academia. Só ouvia o ‘post, o post, o post, vamos por tarjas contra si’, quiseram agredir-me. A primeira pessoa que me quis bater foi o Elton Camará, que é só o mais pequenino do grupo. Eu queria era sair dali. Daí ter dito façam o que quiserem. Sou o mandante terrorista mais imbecil do mundo porque me queriam bater a mim. A intenção de me baterem está expressa em todo o lado.”

Quanto a Mustafá, Bruno de Carvalho declarou à juíza que acabou por gostar dele. “É um indivíduo genuíno e que me faz rir. Sempre nos respeitámos. Claro que tem as suas maluqueiras e ia testando os limites, mas a minha percepção do Nuno Mendes é a mesma das forças da segurança, ou seja, que ele era mais uma solução do que um problema.”

Jesus mudou as regras de segurança da Academia

Bruno de Carvalho respondeu a questões relacionadas sobre as medidas de segurança em Alcochete e culpou Jorge Jesus pelo seu “abrandamento”. “Durante cinco anos e meio tive de passar o cartão. Questionei o Ricardo Gonçalves sobre as pessoas terem passado a porta sem passarem o cartão. Disse-me que tinha sido Jorge Jesus a pedir para retirarem essa medida de segurança. À minha revelia. O senhor Ricardo Gonçalves devia ter ido para a rua. Se não têm alterado as medidas de segurança por indicação do senhor Jorge Jesus tinha sido possível colocar os jogadores em segurança. Disseram aqui que ao disparar o alarme as portas abriam automaticamente. É mentira. Aquele alarme só servia para assustar, para fazer barulho, não estava ligado a sistema nenhum"explicou o antigo presidente “leonino”.

Bruno de Carvalho foi questionado sobre o que quis dizer com a expressão “aconteça o que acontecer, vão estar comigo”, na reunião que realizou com o staff. E a resposta surgiu pronta: “Queria dizer que eu sabia que toda a gente ia ficar contente com a saída de Jorge Jesus. Até iam fazer um jantar de comemoração para festejar.”

Jorge Jesus voltou a estar na mira de Bruno de Carvalho quando este respondeu à juíza que o técnico não percebeu nada da conversa que tinham mantido. “Ele entendeu que iam fazer o papel [da demissão] de manhã e então decidiu alterar o treino para a tarde. Foi das decisões mais acertadas que vi Jorge Jesus tomar em três anos e meio. Teve de ser o Raúl José a explicar em amadorense ao Jorge Jesus que não estava despedido”, ironizou Bruno de Carvalho.

Alegações finais agendadas para 11 de Março

Bruno de Carvalho explicou também à juíza o que se passou no dia do ataque à Academia do clube. “No dia do ataque, chego à Academia, saio do carro e o primeiro jogador com que me cruzo é com o William, que me disse: ‘Acha que nós não sabemos que foi você que mandou fazer isto?’”

Após pouco mais de duas horas de depoimento, Bruno e Carvalho foi dispensado pela juíza. As alegações finais do julgamento do ataque à Academia de Alcochete ficam agendadas para o dia 11 Março. Terão que estar presentes nesse dia, em tribunal, todos os arguidos, não havendo dispensas.

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