Como apanhar um comboio na Penn Station pode ser uma “experiência intensa” — e alucinante

Chove à porta do Madison Square Garden, em Nova Iorque. Mesmo debaixo do espaço para eventos desportivos e concertos, dentro da estação de comboios, reina a desordem. Pessoas enchem por completo os corredores. Tossem e espirram, correm e dão empurrões. Umas contra as outras, não há como evitar o contacto. Se as expressões faciais conseguissem falar, gritavam ansiedade e cansaço. Cheira a cerveja, a café, a suor. O próximo comboio chega daqui a nada. Há que acelerar; perder a hora de partida está fora de questão.

É sexta-feira antes do dia de Natal, sim, mas bem que poderia ser um qualquer dia normal na Penn Station, de onde partem os comboios que ligam a ilha de Manhattan ao aeroporto de Newark, em Nova Jérsia. Afinal de contas, estamos a falar da “estação mais movimentada do hemisfério ocidental”. Agora, Scott Lazer fez uma curta-metragem sobre o caos que ela representa.

O realizador de 31 anos cresceu em Nova Orleães, mas quando, depois de se mudar para Nova Jérsia, tirou a licenciatura em Jornalismo, começou a viver em primeira mão a “experiência intensa” que é chegar à Penn Station e tentar atravessar o mar de pessoas para conseguir entrar no comboio. “Há quem faça isto todos os dias. É uma loucura”, brinca, por telefone.

O fascínio por “este tipo de energia incontrolável” levou à ideia para fazer Commute, filme de dois minutos e meio, gravado em 16 milímetros. Mais tarde, uma conversa com Wilson Kello, que faz a frenética narração – um dos elementos responsáveis pela sensação de tensão que a curta sugere, para além da claustrofóbica música de Omar Souleyman –, deu o toque final. O amigo do artista visual entra e sai da Penn Station diariamente e “teve um monólogo extraordinário” quando Scott lhe pediu para descrever a sua “complicada” relação com a mesma.

Foi de Wilson, lembra o realizador, a ideia de falar do ecrã com as informações sobre as partidas e chegadas dos comboios como “o mestre”. “As pessoas olham-no fixamente, como se fossem zombies. Vêem a informação de que precisam e disparam”, conta o artista, que já gravou vídeos musicais com J. Cole ou Daniel Caesar.

“Com o passar do tempo, deixas de ser um passageiro e começas a fazer parte de um organismo”, ouve-se perto do fim do pequeno filme, gravado em épocas natalícias de 2017, 2018 e 2019 porque Scott Lazer queria capturar um ambiente “especialmente lotado e desesperante”. Esse organismo “geme em conjunto, suspira em conjunto”. “E repete tudo isso no dia a seguir.”

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