Rodrigo Leão: “Não procuro a perfeição, mas sinto que este trabalho tem mais unidade”

Rodrigo Leão começa esta quinta-feira a apresentar ao vivo o seu mais recente disco, O Método. Em Lisboa, no CCB, às 21h. Depois, seguem-se Caldas da Rainha e o Porto.

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Rodrigo Leão Rui Gaudêncio

Depois das lojas, os palcos. Lançado nas plataformas digitais e em formato físico (CD e LP) no dia 21 de Fevereiro, o novo disco de Rodrigo Leão, a que foi dado o nome de O Método, vai ser agora apresentado ao vivo em Lisboa e no Porto, esta quinta-feira no CCB e dia 9 de Março na Casa da Música, sempre às 21h. Também tem já concertos marcados em Caldas da Rainha, no Centro Cultural de Congressos (dia 7 de Março, às 21h30), e em Coimbra, no Convento São Francisco (23 de Dezembro, às 21h).

Marcado por sonoridades ambientais electrónicas, o disco conta com participações de Casper Clausen (do grupo dinamarquês Efterklang), Federico Albanese (músico e compositor italiano), Ângela Silva (soprano portuguesa), Viviena Tupikova (violinista russa radicada em Portugal) e o coro da Associação Musical dos Amigos das Crianças. Descrito por Rodrigo Leão, no texto de apresentação, “como um disco mais contido, mais simples, mais depurado e um pouco mais espiritual também”, O Método já tem três singles editados: A bailarina (com uma animação feita a partir dos desenhos de Rodrigo Leão que compõem a capa do disco), O método (com Federico Albanese) e por fim The boy inside (com Casper Clausen), revelado no mesmo dia da edição do disco.

Encontrar um caminho

No texto que escreveu sobre o disco, Rodrigo Leão diz, quase no início, que “algumas ideias surgiram em quartos de hotel.” E em intencional deriva: “Como é habitual no meu processo criativo, os primeiros passos são sempre muito intuitivos e sem nenhum método.” Apesar disso, o disco acabou por se chamar O Método. Porquê? Ele explica: “Sou obcecado pelos títulos, e para este disco, oito meses antes de estar acabado, achei que desta vez ia ter tempo para pensar num título. A verdade é que dez dias antes de terminar não tinha título nenhum. Só um monte de folhas A4 com muitos títulos, mas nada definitivo. Porquê O Método? Porque acabou por ter alguma ligação com o processo do próprio disco.” Que começou em meados de 2017, depois do lançamento do CD Life is Long e no meio de uma digressão europeia com Scott Matthew.

“Eu estava a tentar encontrar um caminho”, diz Rodrigo Leão ao PÚBLICO, citando como compositores que mais o têm marcado mais nos últimos anos Nils Frahm, Ólafur Arnalds ou Max Richter. “Tinha quase quarenta ideias, umas mais trabalhadas e outras menos. Mas depois de três discos muito diferentes [A Vida Secreta das Máquinas, 2015; O Retiro, 2015; Life Is Long, 2016], senti que estava a tentar procurar um trabalho que tivesse mais unidade entre si. E juntamente com o Pedro Oliveira e o João Eleutério, que são muito amigos e trabalham sempre comigo, quer como músicos quer como produtores, íamos trabalhando e ouvindo as coisas. E pela primeira vez, até por sugestão do António Cunha, que é muito meu amigo e meu manager, convidámos uma pessoa fora desta equipa muito caseira, o Federico Albanese.” Rodrigo Leão já conhecia o trabalho dele. “Ouvi duas ou três coisas que ele tinha produzido e senti que podia ser a pessoa indicada para nos ajudar a encontrar o caminho.” Na verdade, o tal método.

Essencialmente instrumental

E acabou por resultar. “Perdemos muito mais tempo na procura de sons, sintetizadores, pormenores, o Federico sugeriu também um técnico inglês, o Simon Goff, que trabalha muito num estúdio em Berlim, completamente analógico, onde acabámos por misturar o disco depois de o gravarmos aqui, no Atlântico Blue.” Há uma maior presença do piano acústico, que Rodrigo Leão tem vindo a tocar com mais assiduidade há uns três anos, e obedece ainda a outro critério: “Eu queria que fosse essencialmente instrumental, e penso que é, apesar de ter uma canção em inglês [The boy inside, cantada por Casper Clausen], outra em russo e outra ainda com palavras que não existem [A bailarina].”

Rodrigo Leão já tinha pensado em incluir um coro juvenil nalguns temas. “Pedi à minha filha Sofia [então com 11 anos] para cantar três ou quatro frases em português e depois no computador fizemos o reverse [andando com a gravação ao contrário]. Depois ela e a minha mulher, a Carolina, que também me ajudou a compor este tema, arranjaram uma maneira de cortar e fomos um bocadinho pelo que foneticamente nos soava melhor. Mas não tem significado nenhum. A música até é mais abstracta e com um lado misterioso. Podia ser quase uma música infantil nórdica.” Com uma letra que é de lugar nenhum.

Os desenhos que podem ser vistos na capa, sobre fundo creme, e também na animação do videoclipe de A bailarina, são de Rodrigo Leão. “Comecei a fazer alguns desenhos muito simples, por brincadeira, há uns cinco ou seis anos. Mas a verdade é que ao longo destes últimos três anos, enquanto ia procurando estes temas novos, naquelas alturas em que não sai nada eu virava-me para a outra mesa e começava a desenhar. De início a preto e branco, depois comecei a pôr alguma cor. E ficaram associados a este período. Daí a capa. Eu não estava totalmente convencido, mas fiquei contente com o resultado.”

Influências e unidade

A violinista Viviena Tupikova, que trabalha há alguns anos com Rodrigo Leão, também acabou por cantar no disco. “Mostrei-lhe uma música que estava a trabalhar na altura, com a minha voz, e perguntei-lhe se ela não conseguia escrever para meia dúzia de frases em russo. E ela escreveu. Não é bem a tonalidade dela, mas funcionou.” Quanto à soprano Ângela Silva, Rodrigo Leão diz que, além de cantar num tema a solo [Red poem], participa noutros: “Há mais quatro ou cinco onde ela teve um papel importante, até na sugestão de harmonizações, e com o coro das crianças. No concerto ela vai estar não só a cantar, mas a tocar sintetizador ou metalofone, que ela nunca tinha tocado.”

O disco tem onze temas, na sua maioria instrumentais: Ideia 1, A bailarina, O método, The boy inside, Transporte, Red poem, O cigarro, O convite, Loutolim, Dresden, Lula mistério, Parte 1. “Ficaram coisas de fora, e tenho pena, quase que pedia uma segunda parte deste trabalho. Mas estou contente. Não procuro a perfeição, longe disso, haverá coisas mais bem conseguidas do que outras, mas a verdade é que ao longo destes 25 anos, as influências que estiveram presentes em todos os meus discos, desde o tango à música clássica, à música pop, tudo aquilo foi muito importante para mim, mas não havia assim muita unidade. Havia uma música em castelhano, outra em francês, outra em inglês – e não me arrependo disso. Mas sinto que este trabalho tem mais unidade.”

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