Adriano Miranda
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Além da gratuitidade dos produtos para a gestão da menstruação, uma nova narrativa precisa-se

No mundo patriarcal capitalista em que vivemos, é-nos ensinado que o indivíduo produtivo que vai à escola e trabalha não tem corpo ou, pior ainda, que os corpos menstruantes são um problema para a produtividade, deixando claro que este é um mundo ideologicamente preparado para corpos masculinos sem útero.

Desde o início do ano que o P3 tem vindo a publicar notícias sobre as medidas que o Reino Unido tem tomado para combater aquilo que muitos designam por pobreza do período, referindo-se a situações em que as jovens vêem as suas vidas limitadas por não terem dinheiro para pagar os produtos para a gestão da menstruação. Há cerca de um mês foi noticiado que todas as escolas públicas inglesas iriam fornecer, gratuitamente, estes produtos. Esta terça-feira, 26 de Fevereiro, informava-nos que a Escócia é o primeiro país a aprovar um plano para dar tampões e pensos grátis a todas as mulheres. Estas notícias colocaram o tema na agenda e tenho ouvido, e lido, muito esta questão: “Afinal, isto é necessário no Reino Unido e cá não?” Claro que por cá também é. Mas essa não é a única necessidade e se queremos mesmo resolver todas as problemáticas que envolvem o tema menstruação não faz sentido focarmo-nos nesta questão pela metade.

No mundo patriarcal capitalista em que vivemos, é-nos ensinado que o indivíduo produtivo que vai à escola e trabalha não tem corpo ou, pior ainda, que os corpos menstruantes são um problema para a produtividade, deixando claro que este é um mundo ideologicamente preparado para corpos masculinos sem útero, como bem o comprovam os processos de silenciamento e encobrimento que ocorrem sobre a menstruação, nesses espaços. Processos esses que se transformam numa espécie de violência auto-infringida (sempre imposta pelo patriarcado) porque são realizados por milhões de pequenos e grandes gestos diários de parte da metade da população global, que é a menstruante, ensinada a gerir a sua menstruação como se fosse algo inexistente — para não dizer nojento, ou até criminoso.

Os produtos que se apresentam como sendo de higiene íntima (estando este “íntima” relacionado com intimidade e confidencialidade), os anúncios publicitários e os artigos e livros que se debruçam sobre o tema evidenciam a grande importância de esconder a menstruação e os seus possíveis odores e de evitar, a todo o custo, manchas vermelhas na roupa, condicionando a grande maioria das mulheres a sentir vergonha e embaraço quando está menstruada.

O assunto só é abordado para regular, de forma privada, a grande ameaça da menstruação em termos higiénicos e reprodutivos. Segundo Iris Marion Young (2004), isto só acontece porque os conceitos relativos à menstruação são apreendidos segundo a óptica masculina e é urgente que os reaprendamos através da das mulheres e dos corpos menstruantes, desconstruindo todos os conceitos patriarcais que foram sendo construídos em torno de um ciclo natural, acabando por criar um ambiente nocivo para as mulheres e negando-lhes educação adequada sobre o assunto e direitos iguais no espaço público. A narrativa dominante da menstruação deverá ser reescrita para que se possa eliminar o estigma e promover os direitos humanos. E os governos terão que se colocar na linha da frente, com iniciativas vanguardistas, seguindo o exemplo da Escócia.

Não querendo, de todo, apresentar aqui soluções para um problema tão vasto, sugere-se, no entanto, que por cá seja elaborado um protocolo entre o Ministério da Educação e o da Saúde, não só para fornecer produtos para a gestão da menstruação em todas as escolas dos ensinos básico e secundário e nos centros de saúde, para todas as mulheres e corpos menstruantes, uma vez que a pobreza não atinge só as jovens, mas também para que a sociedade possa colocar um fim neste estigma e reconhecer os aspectos positivos da menstruação. Para tal, considera-se essencial que se proporcione educação sobre este fenómeno natural, num ambiente seguro e controlado, bem como:   

  1. a inclusão, nos currículos escolares de todas as escolas básicas e secundárias, de conteúdos relativos à menstruação e ao bem-estar menstrual, destinados a todos os alunos, independentemente do seu género, tal como já acontece noutros países;
  2. a inclusão, nos cuidados de saúde primários, de consultas para as adolescentes e outros corpos menstruantes, que promovam a consciencialização sobre a normalização e importância do ciclo menstrual enquanto sinal vital importante da sua saúde geral, uma vez que é um dos primeiros sistemas a serem afectados por doenças ou um estilo de vida pouco saudável;
  3. que sejam, ainda, os educadores e profissionais de saúde a elucidar sobre as várias alternativas de produtos para gestão da menstruação, até porque a normalização da menstruação vai permitir uma maior abertura para os produtos alternativos, mais saudáveis e amigos do ambiente.

Tal como já referi, não se pretende aqui solucionar esta questão, mas apelar à reflexão, porque se tem demonstrado que os tabus à volta da menstruação excluem, tal como a pobreza, mulheres e outros corpos menstruantes de muitos aspectos da vida social e cultural de todas as sociedades. No final da escrita deste artigo, mais uma vez, através do P3, tive conhecimento de que a RTP Play vai prestar um enorme serviço público, exibindo a série O meu sangue sobre histórias reais sobre o período. Parabéns à autora pela iniciativa.