Opinião

Comer bem. Como quem quer e não sabe

O sistema alimentar não ganhou nenhum Óscar, mas é um filme complexo que passa diariamente nas nossas casas, no seio das nossas vidas.

É um verdadeiro filme de ação onde identificámos a produção, o processamento, a distribuição, a preparação e o consumo dos alimentos como momentos-chave da história. Por sua vez, as mudanças climáticas, a pegada carbónica, as preocupações com segurança alimentar, a contrainformação, as dificuldades na aquisição de alimentos e as incorretas preparações culinárias são alguns dos muitos cenários a ter em conta na equação.

Na sinopse deste filme percebemos de imediato que, quando se verifica falta de acesso e de disponibilidade de alimentos saudáveis ou quando há pouca ou nenhuma literacia alimentar, as pessoas tendem a comer de forma pouco saudável, com consequências diretas na sua saúde. 

Resultado destes desequilíbrios, as doenças crónicas, como é o caso da obesidade e da diabetes, que têm crescido de forma alarmante em todo o mundo e, em Portugal, esta realidade não é exceção.

Muitos portugueses com capacidade, vontade e conhecimento comem como deve ser. Mas bastantes outros, porque não querem, não podem ou não sabem não se alimentam adequadamente.

Para estes, que não podem ou não sabem, têm de ser desenhadas intencionalmente estratégias de educação alimentar e de promoção da saúde e o Estado não pode ficar à margem deste filme, não se pode demitir desta responsabilidade.

A realidade desta história é desconcertante: muitos portugueses comem mal porque não houve, nem há, educação nutricional e a escola deveria assumir um papel integrante na literacia alimentar. Tal como se espera agora, com o Orçamento do Estado para 2020 que prevê a integração de nutricionistas nas escolas públicas de todo o país.

É urgente capacitar a população para escolher, combinar e cozinhar os alimentos e desfrutar da comida de forma saudável e sustentável. É urgente aumentar a literacia da nossa população de forma a permitir uma relação positiva com a alimentação, possibilitando decisões e escolhas que promovam a saúde nacional.

Mas a aposta na literacia alimentar demora a dar frutos pelo que, até lá, devem ser desencadeadas outras medidas suplementares para sanar esta situação de risco, que tende a avançar caso não seja controlada. É necessária uma ação perseverante em políticas públicas eficazes que atinjam o maior número de pessoas possível.

A bem da verdade, nos últimos anos, implementaram-se algumas medidas para melhorar a alimentação dos portugueses, como é o caso da taxa sobre as bebidas açucaradas. No entanto, a verba arrecadada com a cobrança desta taxa deveria ser direcionada para os cuidados preventivos, designadamente para o investimento em literacia alimentar dos portugueses. Contudo, tal não tem vindo a verificar-se e continuamos a insistir em erros antigos.

A literacia alimentar é a base que capacita a população para escolhas alimentares saudáveis. Em Portugal, 40% da população não compreende a informação nutricional básica e este valor aumenta para cerca de 60% quando os inquiridos apresentam um menor nível de escolaridade.

Estes resultados são preocupantes e demonstram a incapacidade de muitos portugueses em compreender e descodificar a informação nutricional presente nos rótulos dos alimentos.

Ora, como podem os portugueses passar a compreender a informação alimentar disponível? A resposta é imediata: apostar na literacia da população e facultar ferramentas facilitadoras de melhores escolhas.

A primeira deve ser entendida como a base para mais saúde e deve ser integrada numa aposta inequívoca na promoção da saúde. O problema é mais aflitivo se o ónus das escolhas alimentares cair sobre um consumidor que não tem habilidades para as fazer de forma informada. E quem tem mais dificuldade em o fazer é quem tem pior condição social, o que aumenta as desigualdades em saúde.

A segunda não é um assunto novo. A necessidade de simplificação da rotulagem nutricional é recomendada pela Organização Mundial da Saúde como uma “best-buy” para prevenir doenças crónicas não transmissíveis, dado ser uma estratégia eficaz para impulsionar escolhas saudáveis.

Mas, para intensificar a confusão, coexistem no mercado nacional múltiplos esquemas interpretativos de rotulagem nutricional nas embalagens. Apesar de o objetivo ser simplificar a informação nutricional legalmente exigida, esta multiplicidade de esquemas inviabiliza o seu alcance.

Os portugueses sabem que a alimentação interfere na sua saúde e estão despertos para receber educação alimentar e nutricional fidedigna.

No imediato, espera-se, a bem do consumidor, que o Governo tome uma decisão que aponte para um esquema único de rotulagem nutricional. Assim, o consumidor pode escolher de forma clara, simples, rápida e eficaz os alimentos mais saudáveis.

Espera-se que quem nos governa cuide da nossa saúde e que a alimentação seja parte integrante dela. Espera-se que o Governo não seja só um figurante num filme em que tem de assumir um papel principal.

*a autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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