Editorial

Foi você que pediu uma TAP nacionalizada?

O Estado ficou com apenas 5% dos direitos económicos da TAP e fora da comissão executiva. Ou seja, ficou com menos poder do que a rainha de Inglaterra

Quando o Governo de António Costa reclamou e obteve o controlo da maioria do capital da TAP, não faltaram aplausos a celebrar a defesa do interesse público, a apoiar o golpe nos sempre pérfidos interesses do dinheiro ou até a exaltar o regresso da companhia ao seu verdadeiro lugar no coração da pátria. Quatro anos passados, a TAP está mergulhada em prejuízos, a gestão privada oscila entre decisões que ofendem o accionista Estado e desculpas que atribuem os males da transportadora a toda a gente menos a ela própria e as relações entre a tutela e a gestão são de cortar à faca. Pelo meio, lá vem a pergunta de sempre: afinal, o que anda o Governo a fazer no meio daquele saco de gatos?

A resposta de hoje é a mesma de sempre, incluindo a do tempo em que se percebeu que a dita “renacionalização” da TAP não passou de uma encenação destinada a provar a veia de esquerda do PS e a adiar os problemas com a barriga. Porque, nesse acordo original, o Estado ficou com apenas 5% dos direitos económicos e fora da comissão executiva. Ou seja, ficou com menos poder do que a rainha de Inglaterra. É por isso que a administração insiste em dar prémios a gestores apesar do protesto do ministro da tutela, Pedro Nuno Santos e, já agora, de 105 milhões de prejuízo. É por isso que o presidente da companhia, Antonoaldo Neves, continua a distribuir ameaças e críticas como se o Estado português fosse um parceiro menor. Se, em última instância, Antonoaldo quiser pagar prémios ou pintar os aviões de roxo é um direito que lhe assiste à luz dessa renacionalização de mão vazia.

Com o verniz a estalar, uma das partes vai ter de ceder. Ou seja, de vender a sua parte a terceiros. Como não será o Estado, serão os brasileiros. Talvez mereçam, face aos resultados operacionais. Talvez precisem de uma segunda oportunidade porque, sejamos francos, melhoraram a imagem da TAP de há uns anos — era uma companhia cacquética e sem esperança. Ou o Governo assume que, face ao que acordou, é um parceiro menor e age em conformidade ou pega na (muita) razão que lhe assiste e varre David Neeleman e a sua comandita da TAP por força do poder político. No primeiro caso, o desconforto será enorme. Mas no segundo também. Alguém quererá comprar os 45% da parte privada da TAP sabendo que do outro lado tem um sócio que quer mandar mais do que os estatutos lhe permitem?