Hospitais do SNS podem activar cerca de 2000 camas de isolamento

Portugal reforça medidas de prevenção, com mais hospitais e laboratórios disponíveis para testar e receber casos suspeitos de infecção. Voos vindos de Itália vão ter distribuição de panfletos informativos.

Saúde
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Miguel Manso

Portugal está a reforçar as medidas de prevenção e a rede de laboratórios e hospitais disponíveis para receber casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus, o Covid-19. Também a informação nos aeroportos está a ser reforçada e os voos vindos de Itália, que está a viver o maior surto da doença na Europa, terão distribuição de panfletos com a indicação dos critérios para caso suspeito e o número da linha SNS 24, para onde as pessoas devem ligar.

Até agora todos os casos suspeitos em Portugal tiveram resultados negativos.

“Os hospitais de segunda linha estão reforçados, assim como a capacidade laboratorial. Estão accionados os mecanismos que permitam detectar precocemente casos suspeitos, isolá-los e ir à procura dos contactos próximos para quebrar possíveis cadeias de transmissão”, disse esta segunda-feira a directora-geral da Saúde, em conferência de imprensa.

Graça Freitas explicou que se fosse preciso agir de imediato, caso surgisse um número superior de casos suspeitos, os hospitais de Santo António (Porto), Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e o Pediátrico de Coimbra, Santa Maria e São José, ambos em Lisboa, estariam aptos para receber casos suspeitos da doença. Também a capacidade laboratorial para fazer análises de detecção de Covid-19 está a ser reforçada. Além do laboratório do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, em Lisboa, também os laboratórios do Hospital de São João (Porto) e do Funchal “já estão activados”. “Na quarta-feira o CHUC e o Hospital Curry Cabral terão os laboratórios activos para fazer testes”, anunciou a responsável, referindo que além destas unidades há uma outra linha de acção caso seja necessário.

A Direcção-Geral da Saúde (DGS) já tinha feito um inquérito aos hospitais para perceber o nível de resposta disponível, caso seja preciso elevar as medidas de resposta. Graça Freitas explicou que “Portugal, como qualquer outro país, terá de ter capacidade de expansão adequada à necessidade”, como já acontece com o pico da gripe. “Temos identificados mais de 2000 quartos de isolamento nos hospitais do SNS, sendo que cerca de 300 são de pressão negativa. Mas qualquer zona pode ser transformada em isolamento se for preciso.” Também as urgências “têm orientações e indicações para terem espaços de isolamento onde um caso possa ficar confortavelmente a aguardar o resultado”, referiu Graça Freitas.

A directora-geral da Saúde explicou que também a Linha de Apoio Médico, para onde os médicos podem ligar para esclarecer dúvidas, está a ser reforçada para a eventualidade de um aumento de contactos. E o INEM, adiantou, também está a reforçar as ambulâncias disponíveis para deslocar até aos hospitais de referência possíveis casos suspeitos. “Não são ambulâncias que tenham de estar preparadas como se fosse o caso de uma febre hemorrágica, como o ébola. O que se requer [para um caso suspeito de Covid-19] é equipamento individual e treino. É nessa fase que o INEM está. Dentro de poucos dias qualquer ambulância poderá ser usada para transportar um doente para hospital. A desinfecção é fácil e simples”, disse.

Graça Freitas afirmou que todas as autoridades de saúde estão alertadas para, perante um caso suspeito, começar logo a identificar os contactos próximos. “Este trabalho está mais oleado”, afirmou, salientando contudo que, ainda assim, é preciso “ter a noção” que Portugal pode vir a ter casos de Covid-19. “Podemos importar um caso em que a pessoa pode estar sem sintomas ou com sintomas ligeiros e só ser detectado numa fase mais tardia e ter contagiado outras pessoas.”

Sobre o português que faz parte da tripulação do navio Diamond Princess, que está atracado no Japão, Graça Freitas disse que este será transferido para um hospital durante esta madrugada [hora de Lisboa]. Em relação às críticas da mulher e do próprio sobre a falta de informação e a demora na transferência para uma unidade hospitalar, Graça Freitas disse que a situação está a ser acompanhada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e que “nada indica que a situação clínica seja grave”. “É preciso cumprir o protocolo das autoridades japonesas. É preciso lembrar que é um navio com 600 casos positivos. Há protocolos que têm de ser seguidos, são pessoas que têm de ficar em isolamento. Não podemos à distância fazer grandes ilações de como as autoridades do Japão estão a gerir o surto.”

Reforço nos aeroportos e voos vindos de Itália

Com o surto que se regista no norte de Itália, e que já infectou mais de 200 pessoas e fez pelo menos seis mortes, “o nível de preocupação aumentou”, reconheceu Graça Freitas. “Estamos mais perto de Itália e teoricamente a probabilidade de contacto aumenta. Temos de estar mais atentos”, referiu a responsável, explicando que estão a reforçar a informação nos aeroportos com folhetos e cartazes com indicações para que as pessoas saibam o que fazer e para onde podem ligar em caso de sintomas.

Os critérios de definição de casos suspeitos estão a ser revistos internacionalmente, sendo que passará a haver referência a zona afectadas, tendo em conta que em alguns países o surto está restrito a algumas zonas. Este foi o critério inicialmente usado quando o surto começou e estava concentrado na cidade chinesa de Wuhan. Posteriormente, com a disseminação de casos por toda a China, passou a ser critério o vir daquele país. Juntamente com a presença de sintomas e o ter estado em contacto com uma pessoa doente. Critérios esses que se mantêm para a definição de caso suspeito.

À semelhança do que já tinha sido decidido para os voos vindos directos da China, também agora os voos vindos da Itália terão distribuição a bordo destes panfletos informativos. A decisão foi tomada numa reunião realizada esta segunda-feira durante a manhã. “É importante os passageiros terem tempo para ler a informação e dentro do avião têm mais tempo para o fazer”, disse Graça Freitas, referindo que estão está a ser definida a operacionalização da medida e consequentemente quanto começará a ser feita.

A directora-geral da Saúde considerou que, para já, estas medidas, que estão “alinhadas com a União Europeia e a Organização Mundial de Saúde, parecem suficientes”. Graça Freitas salientou que as “medidas devem ser adequadas e proporcionais ao risco” e que se houver indicação, haverá rastreio nos aeroportos. “Neste momento não há indicação para o fazer. Também não é uma medida muito eficaz”, reforçou. Sobre a existência de rastreio nos aeroportos italianos, Graça Freitas disse ter neste momento informações contraditórias, mas que já foi pedida informação a Itália sobre os procedimentos que estão a adoptar à saída.

Quanto a restrições de viagens, Graça Freitas explicou que a Organização Mundial de Saúde não impôs restrições. “A decisão tem de ser tomada pelo próprio e pela empresa. Tem a ver com o risco que as pessoas estão dispostas a ter ou não. O que dizemos a quem viaja é que, uma vez chegados aos países [onde existem surtos], têm de perceber quais as indicações desse país. As autoridades de saúde estão a fazer recomendações específicas.” A DGS vai colocar no seu site informação actualizada sobre as áreas afectadas.

Graça Freitas refere que o padrão de mortes registado em Itália é semelhante ao verificado na China. São as pessoas mais idosas e com doenças associadas, como cancro, diabetes, doenças respiratórias e outras que deprimam o sistema imunitário.

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