Lembrar David ou a celebração da poesia

No dia em que faria 93 anos, são múltiplas as razões que me levam hoje a evocar David Mourão-Ferreira.

Dizes coisas peremptórias
Mas quase sempre inexactas
Ó corpo que és só o sósia
De outro que tenho na alma
David Mourão-Ferreira, Obra Poética (1948-1995),
Assírio & Alvim, Lisboa, 482

Neste mês de Fevereiro, entre notícias mais ou menos nefastas e outras mais ou menos espectaculares, uma data e uma lembrança. A data de 24 de Fevereiro de 1927 e a lembrança dum enorme poeta, nascido precisamente nesse dia. Foi há 93 anos. Falo, evidentemente, de David Mourão-Ferreira e da sua Obra Poética recentemente publicada pela Assírio & Alvim. À data e ao nome soma-se a obra, o seu “monumento de palavras” e que, em tempos tão adversos à sensibilidade e às letras e artes como estes em que vivemos, é bem o lenitivo de que muitos precisam para enfrentar melhor um quotidiano rendido à ditadura do virtual, à tecnocracia mais bestial. São, pois, múltiplas as razões que me levam, hoje, a evocá-lo (e a convocá-lo).

Foto
David Mourão-Ferreira LUÍS RAMOS

Digo três razões, a meu ver substantivas, para que não deixemos passar em claro esta data. A primeira prende-se com a belíssima sessão que em Dezembro passado a Fundação Calouste Gulbenkian e a agora editora do poeta, a Assírio, organizaram. O pretexto: a reedição de toda a produção poética do autor de Os Quatro Cantos do Tempo. Para quem teve a oportunidade de desfrutar daquele fim de tarde, não deve ter havido, nos anos mais recentes em Lisboa, uma sessão de lançamento de um livro tão cheia de amor. Intervenções emocionadas, mas duma emoção plena de inteligência; testemunhos em que humor e análise se conjugaram – tudo culminou num magnífico clímax: três fados com letra de David, cantados na bela, grave e merencória voz de Camané.

Segunda e terceira razões: quem ouviu os poemas ditos por Jorge Silva Melo, entre a rouquidão movida a saudade e a respiração de quem executa a partitura dum clássico, igualmente experimentou um raro momento de beleza. E julgo que à forte impressão que a muitos deixou essa tarde-noite d’invernia, outro sentimento se veio juntar: o de uma nostalgia por sabermos que hoje vai sendo cada vez mais difícil, a quem ama a literatura e as artes (era esse o caso óbvio de David); a quem ama os livros dignos desse nome, sobreviver por entre a acefalia geral, a ignorância impante, a indiferença perante os factos da cultura...

Esta terceira razão encerra questões várias. Indico a que me parece mais urgente: David Mourão-Ferreira, e tantos outros autores que recordamos, que citamos, não são estudados nas escolas e nas universidades. Entre os mais novos grassa o absoluto desconhecimento da poesia e prosa desta personalidade maior e que foi também, além de criador literário finíssimo, um inspirado e rigoroso professor, secretário de Estado da Cultura, um dinamizador de revistas literárias, enfim, um homem de letras poligonal. Logo, lembrar David neste dia. Pois que encontrará o leitor se for, então, a uma livraria para o descobrir? Em traços largos procurarei dar conta de algumas coordenadas desta poética.

Inicie-se o gozo desse livro lendo-o em voz alta, numa atenção aos sons da língua. Entrando, como pedia Drummond, no Reino das Palavras. As vogais, as consoantes, a sábia harmonia de assonâncias e aliterações; o equilíbrio fonomelódico através do qual o poeta constrói subtis jogos semânticos, tudo se organiza num discurso denso, fulgurante, onde memória e reinterpretação da história se aliam para dar conta da luta incessante, no mundo humano, entre Eros e Thanatos (“Do cântico de amor gerado na Suméria / ao grande strip-tease a que se entrega Europa / Da nuca de Afrodite aos artelhos de Artémis / Da lascívia da cabra à lascívia da cobra (...)”). É da leitura do velho mundo e da revisão das épocas que este texto dá conta: da Suméria a Heidelberga, do mitológico neptuno à caça submarina; “da mais velha invenção à mais nova tortura”, do Boeing à quadriga. Do horror de Munique à lembrança da Arcádia, numa densidade ímpar. Mais ou menos a meio da composição, surpreendendo a imersão desse discurso que interpreta os séculos, aflora a meditação sobre a passagem do tempo sentida em termos pessoais: “Das rugas de um pescoço ao redor dos quarenta / ao braço que tão liso aparenta catorze.” É desta magia entre reflexão sobre o colectivo e inflexão sobre os mistérios mais íntimos com que cada um se debate – é dessa sageza feita música que se faz a grande arte de David.

Num poeta a quem muito se colou a imagem de grande voz do erotismo, creio que esta Obra Poética (1948-1995) mostrará que, para além disso, Mourão-Ferreira é um dos nossos mais agudos intérpretes do destino humano, da transcendência. A prová-lo estão, mesmo nos volumes iniciais, quando o sujeito se entrega às tempestades de Verão do amor sensual, poemas como Capital decapitada ou Casas Caiadas, indissociáveis da dimensão política, plasmada numa visão tétrica dos anos cinquenta (os “automóveis cinzentos” e a referência ao medo, as “torrentes de veneno” e a pergunta final são pedradas contra o fascismo). E que dizer do grande poema Morse: Mors – Amor, onde é justamente o “Morse dos sentidos” que leva o sujeito a exclamar a Morte como horizonte último da humana condição? Ou, já em décadas mais recentes, esse Testamento, premonitória afirmação da poesia como “monumento de palavras” deste que foi nosso mestre de poesia...

Assim, o tão celebrado erotismo davidiano deve ser reinterpretado à luz de outros eixos que melhor o esclarecem. Não raro são as “furtivas ligações” de fundo niilista figuradas nas ominosas “jangadas desmanteladas / as camas da minha vida” que mostram um sujeito angustiado, perscrutando a morte nos vales mais fundos da paixão. É, pois, o fatum, o travo agridoce do amor carnal que tece o canto e desencanto desse erotismo que, em David, dará expressão ao “Grande Nada”, ao Apocalipse, fruto da “Grande Amnésia” de que o seu poema Canto Secular é a cúpula. A uma luz necessariamente diferente daquela com que alguma crítica o quis catalogar, poemas como Romance de Cnossos, Romance de Amalfi ou as Rime Petrosae, pela primeira vez publicadas em volume, mostrar-nos-ão um poeta dum lirismo especulativo e raríssimo, cuja visão do real, intensificada pela música das palavras, evolui na obra dum fascínio pela mulher, pelo feminino (a única, a inúmera), em direcção à “Mnemósine Rainha” – a Poesia, assim, com maiúscula, suprema linguagem da arte, transfigurando o vivido em lápide, inscrição, num regresso ao eterno retorno que, no poema inaugural, já o fazia escrever “Mal fora iniciada a secreta viagem / um deus me segredou que não iria só”.