Berlim recebe a vaca sagrada de Kelly Reichardt – e fica-lhe bem

Primeiro grande momento da competição 2020 do festival alemão: First Cow, ou o nascimento do capitalismo selvagem com leite de vaca. Mais Philippe Garrel a fazer o que sempre fez

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John Magaro em First Cow, de Kelly Reichardt Allyson Riggs/A24

No território do Oregon em finais do século XIX, não havia vacas. A primeira veio, a grandes expensas e com imenso pedigree, de São Francisco, e perdeu boi e vitelo na viagem para as terras do fim do mundo do feitor de Fort Tillikum. Feitor que é capaz de não achar graça nenhuma quando a vaca não dá tanto leite como ele esperava. O que isso tem a ver com o mestre-cuca que estudou padaria em Boston mas não se dá com os estômagos dos caçadores de peles, e com o fugitivo chinês com quem se trava de amizade, não é evidente ao princípio mas, no mundo de Kelly Reichardt (Wendy & Lucy, O Atalho), o ponto de encontro dá-se em First Cow, o primeiro grandíssimo filme da competição de Berlim 2020.

Façamos aqui uma pausa. O que é um “filme de competição” num festival de primeira categoria? É uma boa pergunta que pode ter tantas respostas quantos festivais, mas as respostas têm traços em comum: uma mistura de “nomes feitos” reconhecidos, pela crítica mais do que pelo público, com jovens autores que dão os seus primeiros passos. Depois, uns festivais serão mais “artísticos”, outros mais “mainstream”, outros ainda mais “experimentais”. Berlim 2020 encaixa na perfeição nesta lógica com a sequência de autores que alinhou nesta primeira leva de títulos: Kelly Reichardt, Philippe Garrel, Christian Petzold, com Abel Ferrara e Hong Sang-soo já em fila de espera.

E vamos ser sinceros: se anda tanta gente a deliciar-se com o facto do sul-coreano Hong andar a fazer “variações” sobre um mesmo filme há anos, não há razão nenhuma para mandar abaixo o francês Garrel por fazer “variações” sobre o mesmo filme há anos. Le Sel des Larmes, a sua entrada competitiva em Berlim, é, sim, mais do mesmo: uma história de educação sentimental com um jovem pinga-amor provincial que desdenha as duas mulheres que o amam de verdade que tomba apaixonado por uma terceira, a única que o trata como apenas mais uma conquista. Tudo rodado naquele deslumbrante preto e branco “à moda antiga”, tudo com as canções e a guitarra eléctrica do velho cúmplice Jean-Louis Aubert, e com o papel que noutros filmes o falecido pai Maurice fazia entregue a André Wilms.

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Le Sel des Larmes RECTANGLE PRODUCTIONS – CLOSE UP FILMS

Portanto, sim, Le Sel des Larmes não traz nada de novo; quem gosta de Garrel continuará a gostar, quem não gosta não vai passar a gostar, e nenhum mal vem daqui ao mundo; excepto que já há muito quem aponte que a abordagem do cineasta às políticas amorosas está tão passée que chega a ser troglodita. Até pode ser verdade, mas o cinema de Garrel existe no seu próprio mundo, que é um mundo – se quisermos – de um outro tempo ao qual ele se agarra ferozmente.

É por isso que é tão reconfortante ver o que Kelly Reichardt e o seu colaborador de sempre no argumento, Jon Raymond, fazem com First Cow, que é uma espécie de “filme-gémeo” do seu falso western O Atalho. Se ali a realizadora olhava para o feminino, aqui ela olha para o masculino (é, literalmente, um filme sem mulheres), mas o exercício de desmontagem das ideias feitas da “grande aventura” do Oeste selvagem é idêntico. Aliás, a única “selvajaria” de First Cow é a do capitalismo selvagem, cujo nascimento em Fort Tillikum se faz através dos biscoitos que o cozinheiro e o chinês fazem surripiando o leite da vaca do feitor. 

Parece uma boutade, mas por trás do aparente anacronismo do humor, Reichardt está a contar-nos coisas sérias sobre a verdadeira história dos EUA, e a mostrar-nos como a ideia do “excepcionalismo americano”, a ideia do Oeste como território de futuro, sempre existiu e nunca passou de um sonho. Equilibrando na perfeição o ritmo do filme (com uma primeira parte mais contemplativa, a fazer lembrar Old Joy, e uma segunda mais truculenta) em direcção a um final absolutamente devastador, First Cow é uma espécie de “farol” para o que um “filme de competição” pode ser. É inteligente, acessível, artístico, capaz de pegar num género e dar-lhe uma volta pessoal sem deixar de cumprir as suas regras (embora, em rigor, estejamos mais próximos dos revisionismos da nova Hollywood como A Noite Fez-se para Amar, e todos sabemos como Altman é uma referência). 

Digamo-lo sem medos: há autores que são “vacas sagradas”, mas First Cow é um filme sobre, literalmente, uma vaca sagrada.