A cantora assombrada e o pintor assombroso

O arranque da competição de Berlim com dois filmes que respondem ao caderno de encargos de um festival, mas que o fazem com volta na ponta.

,70º Festival Internacional de Cinema de Berlim
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El Prófugo, de Natalia Meta Érica Rivas
,Festival Internacional de Cinema de Berlim
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Volevo nascondermi, de Giorgio Diritti Elio Germano

Vamos imaginar que um festival de cinema teria uma lista de tarefas para ir riscando à medida que fosse decorrendo. Por exemplo: “biografia de artista importante mas mal entendido”. Com um “V” rápido de visto, Berlim 2020 fez isso: Volevo Nascondermi de Giorgio Diritti (Competição). Ou: “filme argentino de festival”, o que por si só já é um género, dada, como todos sabemos, a vitalidade da produção argentina. Outro “V” de visto: El Prófugo de Natalia Meta (Competição).

Dito isto, parece que há qualquer coisa de cínico, de programado, não há? Como se a própria ideia de festival se pudesse resumir a um conjunto de lugares-comuns. Cristi Puiu dizia ao PÚBLICO, a propósito do inclassificável Malmkrog, que não lhe interessava fazer o que já foi feito ou fazer cedências às expectativas – é tão difícil montar um filme hoje em dia que não vale a pena perder esse tempo todo e depois fazer algo igual ao litro.

Corrijamos então o tiro: os primeiros títulos da competição berlinense colheita 2020 não querem forçosamente ser iguais ao litro, mesmo que nadem em águas já mais do que exploradas. O caso mais interessante é o de El Prófugo, filme que à superfície se encaixa na dimensão politicamente correcta dos nossos dias – dirigido e escrito por uma mulher, Natalia Meta, é a história de uma cantora que, depois do desaparecimento do namorado, começa a sentir que algo na realidade está a fugir ao seu controlo, ouvindo ruídos, vendo fantasmas, e sobretudo com problemas de voz que nenhum médico consegue detectar.

Sim, podemos olhar para El Prófugo – “o intruso” – como uma referência velada a todas as discussões #MeToo e abuso sexual, até porque o namorado de Inés é um belo de um sacana. Mas Meta não se quer encerrar aí e filma tudo como uma espécie de giallo contido, cerebral, sobre uma mulher em luta com os seus demónios, com um ambiente de Dario Argento vintage filtrado pela estilização moderna de um Peter Strickland (encontramos aqui referências tanto a Suspiria como a Berberian Sound Studio). O espectador deixa-se levar com prazer, mesmo que o cuidado formal de Natalia Meta seja mais bem resolvido do que o cuidado narrativo.

Problema mais sério tem o italiano Giorgio Diritti com Volevo Nascondermi, de biopic impressionista do pintor naïf italiano Antonio Ligabue que parece feito à medida dos Óscares – imagens sumptuosas, música edificante, uma interpretação muito “visível” de um actor conhecido (Elio Germano) vestindo uma personagem real que sofria de problemas mentais… E todos sabemos como os italianos, quando se deixam levar pelo lirismo e pela dolce vita, se podem espatifar ao comprido.

Imagine-se, então, a história felliniana do pobre diabo que cresceu indigente como o aleijadinho da aldeia, maltratado e humilhado por todos, mas cujo inegável talento artístico só será reconhecido já adulto, como se fosse filmada por Terrence Malick com o seu amor pela natureza e as suas panorâmicas apaixonadas. E imagine-se um actor a contorcer o corpo e as feições e a voz para “encarnar” Ligabue, numa daquelas interpretações que impressiona os júris. Tudo isto é verdade em Volevo Nascondermi, e o filme está sempre à beira de se estatelar ao comprido no seu indigesto encontro entre o grotesco e o edificante.

Mas é igualmente verdade que todo esse excesso é perfeitamente consentâneo com a ideia de Diritti de contar a sua história pelo ponto de vista de Ligabue – cores vivas, ângulos esquinados, uma câmara sempre em perda de equilíbrio que se vai acalmando com o tempo. E quando isso se entrosa com a interpretação muito “visível”, mas também muito sensível, de Elio Germano para nos conseguir explicar que, num mundo onde muitos o tratavam como besta rasa, Ligabue se via ele próprio como um animal nobre e digno de admiração, Volevo Nascondermi transcende o pontual mau gosto e permite realmente ver o mundo pelos olhos do outro. Não chega para o salvar, mas chega para não o descartarmos.