A dança e a ciência deram as mãos — e este vídeo português venceu o concurso Dance Your Ph.D.

Duas bailarinas, vestidas de preto, ocupam as escadas da Fundação Champalimaud, em Lisboa. Sem palavras, dialogam de forma constante, através de movimentos que são praticamente simétricos. Uma estica os braços e levanta a perna direita, a outra faz o mesmo. Ambas sobem e descem os degraus em simultâneo. Um rodopio, dois rodopios. Quase se tocam, uma força invisível aproxima-as. Ao mesmo tempo, somos convidados a conhecer a mesma simetria, mas, ao invés de proximidade, vemos dois corpos que se distanciam um do outro sempre que podem. É com esta coreografia que Antonia Groneberg transporta a sua tese de doutoramento, na qual estuda a maneira como as experiências sociais do início da vida influenciam os comportamentos dos peixes-zebra, para “uma linguagem tão simples e universal”.

A investigadora alemã sempre teve uma relação próxima com o mundo da dança, mesmo quando, em Portugal, o foco principal recaiu sobre os estudos, debruçando-se sobre a área do comportamento colectivo. Se a ideia de juntar os dois campos – “aparentemente distantes e sem grande ligação”, conta, por telefone, a partir de Berlim, ao P3 – parece improvável, fez todo o sentido para a jovem de 31 anos. Assim como faz sentido para o concurso anual Dance Your Ph.D., apoiado pela revista Science, que desafia alunos a explicarem as principais conclusões das teses desenvolvidas com recurso a uma dança interpretativa.

O que Antonia explica com o vídeo vencedor da iniciativa, com direito a um prémio de mil dólares (926 euros), é que as vivências sociais que os peixes-zebra experienciam na fase larvar “podem ter efeitos duradouros no cérebro”. A equipa de investigação com quem teve a oportunidade de colaborar monitorizou a actividade de espécimes que cresceram em grupos e outros que foram sujeitos a isolamento. Quando estes últimos chegam à idade adulta, tendem a evitar momentos de interacção. Um estudo sobre peixes-zebra que “pode ser aplicado a outras espécies” e uma transformação de “conceitos complexos em dança que foi extraordinariamente engraçada de fazer”, recorda.

A alemã, que estava em Portugal pela primeira vez desde a defesa da tese quando soube que tinha sido escolhida como vencedora do concurso Dance Your Ph.D., assinala que “recrutou” vários amigos e colegas, alguns da própria Fundação Champalimaud, para fazerem parte da coreografia. O dia das gravações é, lembra, “uma memória lindíssima”.

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