“O politicamente correcto é uma forma hipócrita de lidar com os verdadeiros problemas”

Depois de Por Amor à Língua, Manuel Monteiro percorre, em livro, o labirinto dos absurdos nascidos do excesso de zelo em relação às possíveis agressões da linguagem. Sobre o Politicamente Correcto questiona esse zelo.

Foto
Manuel Monteiro DANIEL ROCHA

Quando o livro Uivo, de Allen Ginsberg, foi levado a tribunal nos Estados Unidos, sob a acusação de obscenidade, o juiz que o absolveu disse, na sentença: “Haveria liberdade de imprensa ou de expressão se tivéssemos que reduzir o vocabulário a inócuos e insípidos eufemismos?” Foi em 1957. Passadas várias décadas, não só os eufemismos como até a própria revisão da história passaram a ser vistos como naturais.

Movimentos de cidadãos e mesmo instituições privadas ou governamentais zelam pelo que passou a ser conhecido como “politicamente correcto”. É este o tema do mais recente livro de Manuel Monteiro, revisor e formador de revisores (autor de, entre outros, Por Amor à Língua), até porque grande parte das alterações propostas passa pela linguagem e pela escrita. Sobre o Politicamente Correcto, com chancela da Objectiva (da Penguin), já está nas livrarias.

O tema já lhe interessava “há muito, muito tempo”, mas foi o falar-se muito sobre ele que o levou a escrever agora. “Há quem diga que isto nasceu com boas intenções, mas quem for ver os dicionários feitos nos Estados Unidos já nos anos 90 ou o livro da Diane Ravitch, The Language Police, encontra muitos exemplos que vêm de trás. O que é curioso é como o termo passou de uma crítica dos esquerdistas a uma certa interpretação da linha certa dos comunistas [“isso não é politicamente correcto” era um comentário irónico] para hoje ser usado de forma tribalizada e com consequências. Temos livros reescritos ou de que são retiradas palavras, petições contra o Dicionário de Oxford! Por isso era importante que muitas pessoas que estão do lado das lutas identitárias se demarcassem disto.”

Pobre, palavra proibida

“Pobre”, por exemplo, consta de uma lista de 96 palavras a evitar, incluídas na Cartilha do Politicamente Correto, de edição oficial no Brasil durante o primeiro mandato de Lula. Ao lado dela estão “barbeiro”, “burro”, “coxo”, “doido” ou expressões como “Maria vai com as outras”. Em vez de “pobre”, usar-se-iam expressões como “em situação de pobreza”, “desfavorecidos” ou “desprivilegiados”. Manuel Monteiro diz: “A ideia é que, ao tornar-se invisível, se torne inexistente. É uma estupidez e um perigo.” Ou seja: a pobreza “acabaria” na fala e na escrita, mas manter-se-ia viva na vida real.

Outro exemplo é a cegueira. A Federação Nacional dos Cegos dos EUA insurgiu-se, em carta datada de 1993, contra eufemismos como “invisual”, “indivíduo com dificuldades de visão”, “desafiado visualmente”, “prejudicado visualmente”, defendendo que a palavra blind (cego) “descreve com rigor e sem sombra de dúvida a condição daquele que não consegue ver”. Apesar disso, Manuel Monteiro diz que o eufemismo e a má consciência persistem: “Já li jornalistas a pedir desculpa porque usaram a palavra blind.”

Monteiro lembra ainda um caso caricato: “Um conselho do condado de Kent proibiu a palavra brainstorming por ser ‘ofensiva’ para os epilépticos, já que lembrava ataques cerebrais. A Sociedade de Epilepsia disse que não havia problema nenhum; ‘mas nós achamos que há’, ripostaram eles. E isso é o mais inquietante: decidir pelos outros.”

O livro recorre a muitos exemplos, ocorridos em vários países, em que boas intenções degeneram numa espécie de “caça às bruxas” que envolve proibições ou revisões de livros ou de peças de teatro, alteração de títulos de obras de arte ou até a reescrita da história, expurgando-a de termos vistos como inaceitáveis. “Já não é só a obra, é também a vida da pessoa. Teve uma acusação ou uma suspeita de assédio sexual, suspende-se a obra! Se agora descobrissem que o Tolstói violou a mãe, para dar um exemplo extremo, a obra dele ia toda para o lixo? Deixávamos de o ler?”

O resultado, por vezes, é mesmo contrário ao pretendido. Martin Luther King usava [a palavra] negro e Malcolm X black”, recorda Manuel Monteiro no livro. Mas depois, por tais palavras serem consideradas ofensivas, surgiram várias alternativas: afro-american, halfafrican-american ou mutt (embora num estudo citado, 70% dos negros americanos tenham declarado preferir black). Isto até se chegar ao actual person of color, designação que, ironicamente, está mais próxima das usadas nos anos da segregação racial nos EUA, onde havia lugares “for colored people” ou com a placa “colored only”.

Voltamos aos eufemismos e a uma linguagem cifrada que não é criada pelos próprios interessados (que em muitos e comprovados casos as rejeitam), mas por pessoas que se arvoram em suas defensoras, com instintos normalizadores quase policiais: “Isto cria um medo do outro”, diz Manuel Monteiro, “não pelo respeito, mas pela forma, pelo símbolo, por uma coisa que está codificada e toda a gente tem de saber, porque se não é racista”.

PÚBLICO -
Foto
“Os excessos geram uma sombra do extremo contrário. O que aconteceu nos Estados Unidos ou no Brasil mostra isso” DANIEL ROCHA

A sombra dos excessos

Premiado em 1999 num concurso do SOS Racismo, e “concordando com todas as batalhas identitárias”, Manuel Monteiro acha-se à vontade para considerar “absurda” uma medida que imponha a inclusão, “no currículo de filosofia de, pelo menos, o mesmo número de mulheres [filósofas]’": “O ‘pelo menos’ já não é igualdade; e quem o diz não sabe nada de filosofia nem de história, porque ignora as condições que afastaram as mulheres.”

“Os excessos geram uma sombra do extremo contrário”, diz Manuel Monteiro. “O que aconteceu nos Estados Unidos ou no Brasil mostra isso. As pessoas não gostam que o Estado defina como é que devem pensar e falar. E eu não acho um bom princípio o Estado definir qual é a verdade histórica e criminalizar quem se afaste dela.” Além disso, não é claro, nestes jogos de linguagem, “onde termina o respeito e começa a condescendência”: “Isto é uma forma tensa, hipócrita, de lidar com os verdadeiros problemas. Utiliza mecanismos profundamente retrógrados: censura, cancelamento de espectáculos, além da aniquilação do benefício da dúvida, que é talvez o princípio mais importante de todos.”