Morreu Rajendra Pachauri, antigo presidente do IPCC

Tinha 79 anos e presidiu o IPCC entre 2002 e 2015.

Rajendra Pachauri
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Rajendra Pachauri Nuno Ferreira Santos

Rajendra Pachauri morreu na última quinta-feira, anunciou o Instituto de Energia e Recursos (TERI) da Índia. Rajendra Pachauri ficou conhecido por ter presidido o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas na altura em que o organismo recebeu o Prémio Nobel da Paz. De acordo com a agência de notícias Press Trust of India, morreu na sua casa já depois de ter feito uma cirurgia ao coração num hospital de Nova Deli. Tinha 79 anos.

Nascido em 1940 no estado indiano de Uttarakhand, Rajendra Pachauri estudou engenharia e economia na Índia e nos Estados Unidos. Ao longo da sua carreira, aconselhou comités de empresas e do governo indiano. Durante muitos anos, foi director do TERI, um instituto focado em assuntos relacionados com a energia e a sustentabilidade com sede em Nova Deli. “O TERI é o que é devido à perseverança incansável do Dr. Pachauri”, afirmou em comunicado Ajay Mathur, actual director-geral do TERI.

Mas ficou sobretudo conhecido por ter presidido o IPCC entre 2002 e 2015. Num obituário sobre Rajendra Pachauri, o jornal norte-americano The Washington Post escreve que supervisionou o painel climático da ONU numa altura em que a credibilidade dos cientistas estava a aumentar sob o ataque de políticos cépticos e de líderes industriais que se opunham ao corte das emissões de gases com efeito de estufa.

Nessa altura, o próprio Rajendra Pachauri também foi criticado pelo seu trabalho no IPCC sobre “falta de transparência” e de “ciência descuidada”, relembra o jornal norte-americano. “Fez demasiadas afirmações políticas, o que não ajudou a mudar a opinião dos que eram cépticos”, relembra Robert T. Watson, que presidiou o IPCC antes de Pachauri. Já Jean-Pascal van Yspesele (antigo presidente do IPCC) assinala que Pachauri “ajudou a pôr as alterações climáticas e a ciência que está por trás delas no topo da agenda internacional”.

Em 2007, o IPCC publica o seu quarto grande relatório sobre as alterações climáticas com milhares de páginas e um grande detalhe técnico. Aí, conclui-se mesmo que as alterações climáticas são “indiscutíveis” e sobretudo da responsabilidade da actividade humana, o que gera grande atenção a nível internacional.

Nesse mesmo ano, pela sua luta contra as alterações climáticas, o IPCC recebe o Prémio Nobel da Paz juntamente com Al Gore, ex-vice-Presidente dos Estados Unidos. “A sua dedicação no avanço da ciência e na melhoria da consciencialização da crise climática perdurarão”, escreveu Al Gore num comunicado citado pelo The Washington Post sobre o legado do antigo presidente do IPCC.

“A contribuição de Pachauri para o desenvolvimento sustentável a nível global não tem paralelo. A sua liderança no IPCC preparou o terreno para os diálogos actuais”, resume no comunicado Nitin Desai, presidente do TERI. Entre 2001 e 2008, recebeu diferentes distinções do Governo da Índia.

Mas, em 2015, Rajendra Pachauri deixou de ser presidente do IPCC e do TERI depois de ter sido acusado de assédio sexual por uma colega do TERI. De acordo com a investigadora de 29 anos, Pachauri bombardeou-a com mensagens inapropriadas mesmo depois de ela rejeitar os seus avanços. O antigo presidente do IPCC negou as acusações e disse que o seu computador e telemóvel terão sido pirateados. Actualmente, o caso estava pendente num tribunal em Nova Deli.

Quando em 2017 esteve em Portugal, a propósito das Conferências do Estoril, deixou a seguinte mensagem numa entrevista que deu ao PÚBLICO sobre as alterações climáticas: “As coisas estão a tornar-se muito piores, muito mais graves e vemos isso a acontecer por todo o lado. Não podemos dar-nos ao luxo de perder tempo, temos de agir muito depressa.”

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