Qual o papel de Juan Branco na divulgação do vídeo sexual do candidato à Câmara de Paris?

O artista e activista russo Piotr Pavlenski e a sua namorada foram formalmente acusados por terem divulgado um vídeo de cariz sexual onde figura Benjamin Griveaux, ex-candidato à presidência da Câmara de Paris pelo partido de Emmanuel Macron. O filho do produtor Paulo Branco está no centro da polémica.

Paulo Branco
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Juan Branco é suspeito de ser o cérebro da operação que levou à divulgação de um vídeo comprometedor DR

Chama-se Juan Branco, tem 30 anos e já não é um nome completamente desconhecido. É filho do produtor de cinema português Paulo Branco, advogado e conselheiro do Wikileaks e do seu fundador Julian Assange, que se encontra preso em Londres e pode ser extraditado para os EUA, e defensor de membros destacados dos coletes amarelos. Suscita dúvidas o seu papel no caso da divulgação de um vídeo sexual do ex-candidato à câmara de Paris do partido de Emmmanuel Macron, pelo qual duas pessoas foram acusadas de “atentado à intimidade da vida privada” e “difusão sem acordo da pessoa de imagens de carácters sexual”.

Juan Branco está envolvido na polémica do momento em França, a publicação online de um vídeo de cariz sexual onde figura o ex-ministro Benjamin Griveaux, que era candidato à presidência da câmara de Paris pelo partido de Emmanuel Macron, A República em Marcha. Griveaux acabou por desistir da candidatura e foi substituído no domingo por Agnès Buzyn, que era ministra da Saúde.

O advogado de origem portuguesa, que inclui no percurso profissional o Tribunal Penal Internacional e cargos nos gabinetes de ex-ministros franceses, apresentou-se para representar Piotr Pavlenski, o artista e activista russo que divulgou o vídeo. Mas o Ministério Público de Paris, num comunicado, pediu a Branco que renuncie a defender Pavlenski, por considerar existir conflito de interesses e recorreu ao presidente da Ordem dos Advogados que intervenha.

Juan Branco conheceu em Novembro Pavlenski, de 35 anos, e a sua namorada Alexandra de Taddeo, estudante de direito de 29 anos, durante os preparativos para uma conferência internacional em Lisboa, conforme explicou o advogado ao El País. Um mês depois, Branco convidou Pavlenski para uma festa de passagem de ano, num apartamento em Paris, que acabou com o artista russo envolvido numa briga e a empunhar uma arma branca, acabando por ferir duas pessoas. Pavlenski foi detido porque havia um mandado de captura por causa desta briga. 

Naquela noite de festa, o activista russo — o activista pregou, em 2013, os próprios testículos ao chão da Praça Vermelha, em Moscovo, para protestar contra o regime de Vladimir Putin —​ revelou a Branco que estava a preparar “uma grande acção”, sem lhe contarem do que se tratava, relata o Le Monde.

Algum tempo depois, ligaram-lhe. ‘Estamos preparados, podemos ver-nos?’”, lembra Juan Branco, que, familiarizado com o modus operandi do artista russo, se disponibilizou para ajudar. Foi então que os dois contaram ao advogado que tinham na sua posse o vídeo de cariz sexual que envolvia Benjamin Griveaux. Mas o contacto foi iniciado por Alexandra de Taddeo, a namorada de Griveaux, em 2018, altura em que este era ministro porta-voz do Governo. ​O objectivo seria provar a “hipocrisia” do político que, segundo o russo, fazia “propaganda aos valores tradicionais da família”. 

“Têm a certeza?”, questionou Branco sobre a divulgação do vídeo na Internet, depois de ter alertado Pavlenski e Taddeo para as potenciais consequências. Segundo o Le Monde, os três – Branco, Pavlenski e Taddeo – foram “um trio sem fé nem lei”. O diário francês vai mais longe ao afirmar que Griveaux tem consciência de que o activista russo tem ainda na sua posse outras imagens comprometedoras.

Quanto a Branco, passa a estar no centro da polémica, sob suspeitas de ser o cérebro da operação. No entanto, Juan Branco garante em entrevistas ao canal francês BFMTV e ao jornal Le Point que não assumiu nenhum outro papel para além do de advogado do artista russo, sublinhando que para Pavlenski se trata de “um acto político”. “Da mesma forma que se opôs ao regime de Putin, quis opor-se ao regime de Macron, que considera igualmente repressivo”, disse ao Le Point. O PÚBLICO tentou entrar em contacto com Juan Branco, mas não obteve uma resposta.

"Resistência"

O percurso de Juan Branco, nascido em Málaga, é extenso e inclui um cargo (sobre o qual restam dúvidas) para o gabinete da ministra da Cultura Aurélie Filippetti e para o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-primeiro-ministro Laurent Fabius. Em 2017, chegou a concorrer, no círculo de Seine-Saint-Denis, como deputado às eleições legislativas pela França Insubmissa, o partido de extrema-esquerda.

Escreve o El País que Juan Branco vem do “mesmo mundo que Emmanuel Macron” e é “um produto perfeito da mesma fábrica da aristocracia republicana”. Frequentou as melhores escolas e universidades internacionais (como a Sciences Po ou Yale), “veste-se como eles, fala como eles, pensa como eles”. Mas com uma diferença: para Branco, Macron e “os seus” conduziram a França “ao abismo”, “apenas respeitam formalmente o sistema democrático” e “violaram os princípios democráticos e republicanos”. Como resultado, a França pode apenas esperar “o aperto autoritário do regime ou o seu colapso”. São estes excertos do seu livro Crépuscule, um ensaio anti-Macron publicado em 2019 e que vendeu já, segundo o El País, 150 mil cópias.

“Tudo isto faz-me lembrar as velhas técnicas soviéticas. Usavam-se mulheres e homens jovens para levar os políticos a caírem numa armadilha e obter material comprometedor”, afirma ao Le Parisien a especialista Galia Ackerman, que já traduziu um livro escrito por Pavlenski. Mas para Juan Branco esta “era uma coisa de aficionados”. “Não havia uma máquina por trás”, garante ao El País.

O objectivo parece ser comum ao três: derrubar o regime de Macron ou, pelo menos, uma das suas figuras-chave. A palavra que ecoa é uma: “resistência” — a mesma que ecoou aquando da sua entrevista ao PÚBLICO, em Novembro, a propósito do simpósio Resistências.