Eureka. Fábrica fechou mas trabalhadores não descobrem subsídio de desemprego

No primeiro dia em que a empresa de calçado de Vizela parou a produção, cerca de meia centena de trabalhadores concentrou-se para exigir que o modelo relativo ao subsídio de desemprego lhes seja entregue o quanto antes, depois da Eureka não o ter feito na sexta-feira.

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Cerca de 150 trabalhadores foram atirados para o desemprego Sandra Ribeiro

Ao cabo de 34 anos a produzir calçado da marca Eureka, até há bem pouco tempo à venda em 13 lojas espalhadas pelo país, a fábrica situada na rua da Boca, em Vizela, parou esta segunda-feira, atirando para o desemprego as cerca de 150 pessoas que ali trabalhavam. Desses, cerca de meia centena reuniu-se esta terça-feira à tarde, junto à Câmara Municipal, para exigir o subsídio de desemprego, ainda indisponível. “A empresa só entra em insolvência no dia 20. O tribunal vai nomear um administrador e enviar-nos depois a carta para o fundo de desemprego. É por isso que estamos aqui a reivindicar”, explicou ao PÚBLICO Manuel Miranda, operário da Eureka nos últimos 19 anos.

Os trabalhadores só souberam que a empresa detida por Alberto Sousa iria encerrar quando receberam uma carta às 17h15 da última sexta-feira, já bem perto do fim da jornada de trabalho, lembrou Maria Lúcia Fernandes, costureira na empresa durante os últimos 33 anos, ali reunida com outros trabalhadores da Eureka. Apesar de o fecho ser uma possibilidade discutida entre os operários desde 2018, quando a empresa foi alvo de um Processo Especial de Revitalização, que incluía uma dívida de 22 milhões de euros a 622 credores, Maria Lúcia não esperava ser informada de um momento para o outro “sem qualquer satisfação” e sem o acesso ao modelo 5044 da Segurança Social, que garante o subsídio de desemprego. “Vamos ter de esperar pelo administrador da insolvência, mas até lá podem demorar duas ou três semanas”, lamentou.

O timing do encerramento surpreendeu igualmente o Sindicato do Calçado do Minho e de Trás-os-Montes. “Na quinta-feira, entrámos em contacto com a empresa e eles mostraram-se muito chocados [com a possibilidade de encerramento], porque nada disso seria possível. Na sexta-feira, aconteceu o que aconteceu”, revelou a sindicalista Aida Sá.

Essa carta, acrescentou a sindicalista, não incluía o acesso ao subsídio de desemprego; esse modelo iria estar incluído numa nova carta emitida aos trabalhadores, de acordo com o que lhe disse o advogado da empresa. Essa promessa acabou por dissuadir os trabalhadores de fazerem a concentração desta segunda-feira junto à fábrica. “Temos de acreditar na boa-fé da empresa. Os trabalhadores vão receber uma nova carta para levantarem somente o modelo para o desemprego”, disse.

O sindicato, porém, já pediu à Autoridade para as Condições do Trabalho para fiscalizar a situação relativa ao subsídio de desemprego numa empresa que manteve os salários regularizados até ao fim, mas já se encontrava longe da “melhor situação económica” desde 2018. A quebra da empresa foi também sentida por Manuel Miranda, nomeadamente em termos de encomendas. “Havia falta de trabalho. Havia muitos dias em que, às vezes, mesmo sem pararmos, fazíamos menos do que o habitual. Havia menos encomendas também”, lembrou.

Marca de empresa associada em Milão

A produção da marca Eureka está doravante extinta, mas alguns dos trabalhadores da fábrica presentes na concentração disseram ter trabalhado, durante o último mês, para a marca ESC; exposta na Micam, a feira de calçado de Milão que começou no domingo e termina na quarta-feira, a marca está sob a alçada da Asial, empresa de calçado também sediada na Rua da Boca, com cerca de 90 trabalhadores, informou Aida Sá.

Essa empresa, maioritariamente detida por Filipe Sousa, filho de Alberto Sousa, apresenta-se no site como parte do Grupo Eureka, mas tem um número de identificação fiscal diferente — o da Asial é o 502119632 e o da Alberto Sousa, detentor da marca Eureka, o 501690123. Questionada sobre a integração de ex-trabalhadores da Eureka na Asial para a produção da nova marca, Maria Lúcia Fernandes referiu que algumas pessoas foram contactadas nesse sentido, embora sem confirmar que isso vá mesmo acontecer.

Contactada pelo PÚBLICO, fonte ligada à Eureka adiantou que nem Alberto Sousa, nem Filipe Sousa estão disponíveis para falar sobre o caso.