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Arrokoth ou a reescrita de todos os livros de ciências

Afinal, de que modo se comportam os objectos no espaço? Flutuam, como os astronautas! A resposta esteve sempre à frente do nosso nariz, qual ovo de Colombo, e a ideia de colisões violentas para a formação de planetas está agora posta de lado.

Parece o nome de um demónio dos infernos: Arrokoth. Mas não é, não é um demónio, antes uma dádiva dos céus. Arrokoth é nome de um asteróide localizado na cintura de Kuiper, sendo, até à data, o objecto mais distante alguma vez visitado por uma sonda espacial, a New Horizons, depois de um voo rasante a 1 de Janeiro de 2019.

A sua localização indica a linha de chegada dos materiais expelidos pelo Sol aquando da sua origem, os quais orbitam o Sol como uma imensa nuvem no céu. Ter a sorte e a felicidade de observar objectos tão distantes não é senão uma viagem no tempo, mais precisamente ao tempo da formação dos planetas.

E, então, qual é a surpresa de viajar no tempo para observar uma “batata” com 35 quilómetros de comprimento? 

Imaginem a formação de um planeta: as imagens de colisões violentas num sistema solar primitivo são imediatas. Num jovem planeta Terra, rios de lava entremeados por vulcões são bombardeados por milhares de asteróides a cada segundo. Ao longo de centenas de milhões de anos, esta guerra sem fim leva à acreção dos materiais e, eventualmente, à formação de planetas.

Estas são as imagens. Não temos outras. São produto de teorias e da imaginação dos homens e crescemos com elas sempre que, na escola, nos filmes, livros, televisão e internet, ouvimos falar da formação dos planetas.

Está tudo errado. Graças ao Arrokoth, está tudo errado.

Isto porque a observação directa dos dois lóbulos deste asteróide revela um bailado lento e suave sob a batuta da gravidade entre dois amantes perdidos no espaço. O beijo, ao invés de violento e destruidor, é suave, lentamente unindo dois asteróides para sempre.

Afinal, de que modo se comportam os objectos no espaço? Flutuam, como os astronautas! A resposta esteve sempre à frente do nosso nariz, qual ovo de Colombo, e a ideia de colisões violentas para a formação de planetas está agora posta de lado.

Não que as mesmas não aconteçam, pois claro, acontecem, basta pensar no asteróide responsável pela extinção dos dinossauros, mas não têm o mesmo papel na acreção dos materiais.

A segunda descoberta prende-se com o facto de o bailado gravitacional possibilitar a formação de planetas em poucas centenas de anos ao invés de milhões de anos. E num repente é preciso reescrever todos os livros de ciências...

O Arrokoth deixou assim de ser apenas uma “batata” espacial para ser uma revolução na astronomia, muito mais surpreendente do que os céus azuis de Plutão. Tudo graças à New Horizons. E as descobertas não se ficam por aqui. Ficamos a suster a respiração até ao próximo capítulo.