Crónica

Cheira a pobre

A fronteira entre um dia envergar fato e gravata imaculáveis, e deixar um aroma perfumado à sua passagem, e no dia seguinte cair-se na rua, destilando um odor considerado desagradável, estreitou-se. As desigualdades e a precariedade intensificaram-se, criando realidades que são tão permeáveis e parasitárias.

Quarteirões de arranha-céus sofisticados. Espectacularidade na arquitectura dos espaços. Néones à noite conferindo ao todo uma atmosfera futurista. E pessoas circulando, impecáveis nos seus fatos e vestidos, patenteando bem-estar material. Foi há semanas em Toronto, no Canadá. É fácil maravilharmo-nos com a Baixa da cidade, idêntica a muitos outros centros económicos cintilantes, porque o modelo urbano e social acaba por ser semelhante noutras grandes metrópoles, sejam elas americanas ou orientais.

Quando nos afastamos uns quantos quarteirões do centro, circulando pela Alta da cidade, uma outra realidade vai-se desvendando. Perímetros urbanos mais descuidados, gente a dormir nas ruas, excluídos da história e de uma existência digna aglomerados junto de cadeias de comida instantânea. Foi aí que aquilo aconteceu. Ao passar por um desses lugares, um homem era empurrado com agressividade por um dos empregados que gritava que o outro cheirava mal. Nada de novo, dir-se-á. Situações semelhantes tornaram-se vulgares. Alguém que olhamos como sendo um sem-abrigo a ser afastado de locais públicos com o argumento de que incomodam, forma de garantir que a vida asséptica de uns não seja contaminada por outros.

Mas ali dir-se-ia que essas lógicas se extremaram. A fronteira entre um dia envergar fato e gravata imaculáveis, e deixar um aroma perfumado à sua passagem, e no dia seguinte cair-se na rua, destilando um odor considerado desagradável, estreitou-se. As desigualdades e a precariedade intensificaram-se, criando realidades que são tão permeáveis e parasitárias, quanto profundamente opostas. Uns dias depois vi o filme Parasitas, que no domingo arrecadou os Óscares, e lembrei-me desse cenário.

No filme o odor é o principal marcador de distinção social. Nada de surpreendente. A história está repleta de segregações, construídas através dos sentidos, sobretudo o olfacto. No caso do filme, é como se o cheiro dos pobres, trazido do metro, da comida e dos seus ambientes, constituísse a única ameaça à encenação criada junto dos ricos. Mesmo quando todas as outras marcas de pobreza são ocultadas, aquele odor particular mantém-se, impedindo a integração, o que não desencadeia nenhuma luta de classes emancipadora como tem sido aludido, mas sim conflito.

O cheiro é manifestação do preconceito. É através dele que vem à tona a violência da distinção social, a desumanização que faz com que a vida de alguns seja invisível para outros, como se fossem fantasmas. A questão é que, por mais refúgios de semelhança que sejam criados, estamos obrigados a conviver. Se não queremos que o antagonismo irrompa, como no filme, convinha arranjar estratégias para uma coabitação o menos desigual possível.

Infelizmente não é isso que vemos nos nossos dias. O luxo tende a ser cada vez mais perfumado, e a pobreza cada vez mais encardida. Num mundo ideal, destituído de lógicas socioeconómicas tão hierarquizadas, todos teríamos direito a um duche matinal que lavasse por fora e purificasse por dentro. Pelo menos é democrático e igualitário. Despidos, sozinhos, cantando no chuveiro, não há grande lugar para projecções, comparações ou competições. No chuveiro somos todos uns pobres diabos a tentar apenas enfrentar o dia que aí vem, dando-nos a real importância que temos: nenhuma.