Xi Jinping soube da gravidade do coronavírus duas semanas antes de falar em público sobre o assunto

Num discurso divulgado este sábado, Xi Jinping revela ter dado instruções às autoridades para combater o surto do novo coronavírus a 7 de Janeiro. Porém, o Presidente apenas se dirigiu publicamente à população quase duas semanas depois.

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Transeunte com máscaras junto a um retrato do Presidente Xi Jinping e outro de Mao, em Xangai Aly Song/REUTERS

A imprensa estatal chinesa divulgou este sábado um discurso do Presidente Xi Jinping que indica que o líder chinês estava ciente da potencial gravidade do surto do novo coronavírus semanas antes de a população ser alertada para a questão.

No início do surto, Xi Jinping adoptou uma postura que muitos consideraram como pouco activa, fomentando uma vaga de críticas sobre a resposta à crise do Governo chinês, que o forçaram, esta semana, a vir para a frente do combate à crise sanitária, lançar uma purga nos dirigentes do Partido Comunista Chinês (PCC) na província de Hubei, onde o novo vírus surgiu e iniciar uma reforma na maneira como a China lida com as emergências de saúde.

De uma forma inédita, os cidadãos chineses, forçados a uma quarentena de proporções gigantescas — dezenas de milhões de pessoas são confinadas às suas casas, ou submetidas a medidas de controlo que limitam severamente a sua circulação ou contacto com outras pessoas — exigem mais transparência ao Estado, mais informação sobre o que se está a passar. Xi Jinping, como fonte de autoridade de um Estado altamente centralizado, vê-se constrangido a abrir algumas janelas, deixando arejar um sistema habituado ao secretismo, ao mesmo tempo que aperta o controlo noutras partes. 

É através desse prisma que se deve ler a divulgação, neste domingo, do discurso feito a 3 de Fevereiro por Xi Jinping em que relata ter dado ordens, a 7 de Janeiro, durante uma reunião do Comité Permanente do Politburo, o órgão mais poderoso da política chinesa, para a execução de medidas para a prevenção de infecções pelo novo coronavírus. O discurso é publicado na revista Qiushi — descrita pelo Diário do Povo, jornal oficial do PCC, como “uma publicação de referência do Comité Central do Partido Comunista da China”. 

Neste discurso, acompanhado por fotos de Xi e outros líderes com máscaras de papel azul, o Presidente chinês diz que autorizou a quarentena sem precedentes em Wuhan a partir de 23 de Janeiro — uma cidade com 11 milhões de pessoas, que é um importante nó de transportes ferroviários, por rio e aéreo, com um centro tecnológico e de produção automóvel para marcas internacionais, e também numa área importante de produção agrícola.

Apesar de Xi relatar as suas acções desde o início de Janeiro, só no dia 20 de Janeiro Xi falou publicamente da nova doença e as autoridades chinesas reconheceram a existência da epidemia na cidade de Wuhan, que então já se tinha espalhado para outras cidades chinesas e outros países. Foi nesse dia que as autoridades de Pequim confirmaram que o Covid-19 se transmite entre humanos, altura em que o alarmismo começou a ganhar um novo tom.

Os conselheiros de Xi Jinping terão julgado que a divulgação deste discuso mostrará que o Presidente chinês estava atento à crise desde o início — esperam com isso afastar as críticas por não ter aparecido publicamente a liderar as acções contra a emergência, que já fez 1665 mortos, num total de 68.500 infecções. “O tom geral do discurso parece defensivo”, disse ao New York Times Minxin Pei, professor de Governo no Colégio Claremont McKenna, na Califórnia (EUA). “Ele quer mudar a narrativa, que até agora tem sido muito desfavorável às lieranças chinesas.”

“Eu acompanhei, a todo o momento, a propagação da epidemia e o progresso nos esforços para a conter, emitindo constantemente ordens oralmente e instruções”, garantiu Xi Jinping, no discurso citado pelo New York Times.

Governo “não estava a dormir"

O executivo chinês enfrenta agora várias críticas e descontentamento por parte do público, que se agudizou no início deste mês após a morte de Li Wenliang, o médico chinês, de 34 anos, que lançou alertas sobre o novo novo vírus e que foi detido por “espalhar rumores” e forçado a assinar um documento a desdizer-se — e que morreu após contrair o Covid-19.

Poucas horas depois da divulgação do discurso, a China anunciou uma queda nos novos casos de Covid-19 pelo terceiro dia consecutivo. Foram reportados este domingo 2009 novos casos na China continental, que exclui Macau e Hong Kong, elevando o número total para 68.500. A taxa de mortalidade permaneceu estável, com 142 novas mortes, informou a Comissão Nacional de Saúde. O número de mortos na China continental pelo novo coronavírus fixou-se nos 1665. Há ainda a registar um morto na região especial administrativa chinesa de Hong Kong, um nas Filipinas, um no Japão e um em França (registado este sábado), elevando o número total de mortes a nível mundial para 1669.

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