Crítica

Factos alternativos

A metáfora de Tennessee Williams sobre a crueldade da verdade e a construção da ilusão encontra nesta encenação de Bruno Bravo em cena no D. Maria II uma realização plástica muito bem conseguida – mas que trava a fluidez do discurso no seu caminho para o precipício.

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Carolina Salles (em primeiro plano) e Mónica Garnel polarizam a intriga de Subitamente no Verão Passado FILIPE FERREIRA

Sebastian é tão exemplar e excepcional e perfeito que até dói. Poeta de um único poema ao ano, luminoso aspirante à posteridade, sensível na sua eterna e casta juventude, assombrado, melhor, angustiado pela crueldade de Deus quando faz desabar a natureza sobre os homens… E a mãe continua, debitando elogios. Sebastian, porém, está morto. Deixou um rasto de dor mas está descansado da sua inquietação e no seu mito. Não fora a prima, sua última companhia, ter uma versão muito diferente do acontecido algures numa aldeola de Espanha um ano antes.

O cenário exuberante e os figurinos imaginados por Stéphane Alberto, aliados ao desenho de luz generosamente claustrofóbico de Alexandre Costa e à densidade da música e da sonoplastia criadas por Sérgio Delgado, contribuem para a elaboração cénica e dramática do ambiente doentio em que a versão idílica e quase incestuosa de Violet (Mónica Garnel), a mãe, sobre o seu filho, é contrariada pelo testemunho da prima, Catharina (Carolina Salles), que nutre pelo falecido uma variedade de amor maternal. Entre as duas, a intermediação de um médico (José Leite, em elenco onde também se encontram Alice Medeiros, Joana Campos, João Pedro Dantas e Marina Albuquerque) com vontade de lobotomizar a rapariga para, como diz às tantas Violet, cortar “essa história horrenda do cérebro” e, assim, sobrar apenas a verdade que é a sua. Uma verdade que, para a resignada Catharina, “dizem que está no fundo de um poço que não tem fundo”.

Sem querer, em 1958, ao criar uma peça que, sob a forma de um drama familiar, é realmente uma longa metáfora sobre a crueldade da verdade e a construção da ilusão, Tennessee Williams (1911-1983) teceu uma teia ética e filosófica sobre o papel da verdade, da omissão e da mentira na construção do discurso social; hoje, pelas razões óbvias da ascensão da época da pós-verdade, metáfora ainda mais merecedora de atenção. Mas não haja ilusões. Não era isso que o dramaturgo norte-americano tinha em mente durante a concepção de uma das suas mais peculiares e estimulantes obras. E, atendendo à forma como construiu a sua encenação, se lhe passou pela cabeça, também não foi nisso que Bruno Bravo mais cogitou na sua abordagem a este mundo de sombras protagonizado por um cadáver. O encenador da companhia Primeiros Sintomas coloca-se mais perto de uma ideia de martirização religiosa através das palavras – particularmente expressiva no monólogo final – deste delicado, misterioso e armadilhado texto em que Williams usa as aparências como forma de explorar os sentimentos e as relações humanas através de duas versões contraditórias, na realidade ambas pouco críveis – para não dizer algo alucinadas. Há, no entanto, nesta montagem, uma insistência, muito bem conseguida plasticamente, e com certeza nascida do desejo de realçar o valor e o significado do texto, em apresentar cada cena como um quadro vivo, o que impede o discurso de fluir mais intensamente no seu caminho para o precipício, apesar dos esforços de Mónica Garnel e, principalmente, de Carolina Salles no seu longo e sentido monólogo.