Xi Jinping quer uma reviravolta na forma como a China lida com crises de saúde

O Presidente chinês admitiu que o Partido Comunista Chinês tem de resolver uma série de problemas, falhas e fraquezas na resposta ao coronavírus que já infectou mais de 63 mil pessoas e matou 1380. Quer uma lei de biossegurança.

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As palavras do Presidente chinês foram a mais forte admissão de que o sistema de saúde chinês não estava preparado para lidar com o surto LUSA/ARIS MESSINIS / POOL

A China tem de fazer mudanças profundas no sistema de resposta a emergências de saúde pública, afirmou o Presidente Xi Jinping esta sexta-feira, numa reunião com responsáveis de topo do Partido Comunista Chinês (PCC) em Pequim, enquanto o país continua a debater-se com a crise do novo coronavírus, que deixou os cidadãos à beira de um ataque de nervos e a economia paralisada.

Xi admitiu que o PCC tem de resolver uma série de problemas, falhas e fraquezas que afectaram ao coronavírus. Falou na necessidade de rever as leis relativas à prevenção e tratamento de doenças infecciosas e protecção da vida selvagem (tráfico e consumo de animais selvagens), e sublinhou a necessidade de redigir uma lei de biossegurança, relata o jornal de Hong Kong South China Morning Post.

Fê-lo depois de uma “purga” de altos responsáveis do partido em Wuhan, a cidade onde o novo vírus surgiu. Só nesta sexta-feira houve 5090 novos casos desta infecção na China continental e foram contabilizados 121 mortos. O número total de infectados já ultrapassa os 63 mil e as mortes mais de 1380. Foi também o dia em que a doença foi confirmada, pela primeira vez, em África - o Egipto registou o primeiro caso, um estrangeiro.

“Não há preparação suficiente para uma catástrofe. Análises de risco, investigação e gestão pormenorizada de emergência não estão disponíveis. Os sistemas de monitorização e de alerta precoce não são adequados e as bases da gestão de emergências têm de ser reforçadas”, disse o Presidente, que é também secretário-geral do PCC, de acordo com o South China Morning Post. A emergência do coronavírus, continuou, “é um grande teste ao nosso sistema e capacidade de governação”. 

A admissão de Xi foi a mais forte até agora sobre as falhas do sistema de emergência chinês desde o início do surto na província de Wuhan, em Dezembro. Xi Jinping viu-se obrigado a liderar a resposta à crise, após uma primeira fase em que se manteve na retaguarda. Foi obrigado a isso, devido à forte reacção internacional à forma como a crise estava a ser gerida, e a maneira como os próprios cidadãos chineses reagiam, nas redes sociais, à falta de informação sobre as quarentenas em massa impostas em 16 cidades na província de Hubei, com um total de 56 milhões de habitantesQuanto mais o surto durar, mais prejudicada ficará a credibilidade do regime

Um sinal que se espera revelador dessa nova atitude foi o anúncio, pela primeira vez, esta sexta-feira, do número de profissionais de saúde infectados com coronavírus na China: 1716, dos quais seis morreram. “Os profissionais de saúde enfrentam o desafio de cuidar de um número substancial de pacientes em Wuhan. É preocupante saber que muitos foram infectados”, disse ao New York Times Benjamin Cowling, professor de Epidemiologia da Universidade de Hong Kong.

A televisão chinesa anunciou entretanto que qualquer pessoa que esteja a regressar a Pequim, de outra parte do país, terá de ficar em isolamento durante 14 dias. Quem não cumprir esta obrigação “terá de responder de acordo com a lei”, diz o New York Times. O comunicado foi emitido por um “grupo de líderes” do PCC ao nível municipal, e não pela liderança nacional. 

A China hesita entre o relançamento da economia e o combate sem tréguas ao novo vírus. Após o fim do período de férias do Ano Novo Chinês, as pessoas regressam aos locais de trabalho, mas é preciso garantir que não trazem a infecção consigo. É obrigatório usar protecções para evitar transmitir o vírus aos colegas - por isso vêem-se trabalhadores envolvidos em plástico dos pés à cabeça, e com máscaras. 

Os epidemiologistas chineses acreditam que o pico do surto será nas próximas semanas, mas há quem avise que não se pode avançar com uma data. "Este surto ainda pode avançar em qualquer direcção”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da Organização Mundial de Saúde

"Apesar de as autoridades chinesas estarem a fazer o seu melhor, com base nas actuais tendências de casos confirmados, há uma clara indicação de que as medidas que aplicaram até agora fizeram muito pouco, muito tarde”, disse à Reuters Adam Kamradt-Scott, especialista em doenças infecciosas no Centre for International Security Studies da Universidade de Sydney, na Austrália. 

Não se espera que exista uma vacina antes de 18 meses - devido aos constrangimentos próprios de produção das vacinas. Entretanto, as autoridades de saúde chinesas lançaram um apelo aos pacientes que recuperaram da infecção para doarem plasma, esperando que os anticorpos que o seu organismo desenvolveu contra o vírus ajudem outros doentes a derrotar o novo coronavírus.

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