O amor que não cabe numa selfie

O amor genuíno, das vidas a sério, é feliz, mas com intermitências. É o amor que escolhe não desistir e que vai resistindo ao passar da vida. E, às vezes, é o amor que até consegue mesmo durar para sempre.

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"O amor genuíno, das vidas a sério, é feliz, mas com intermitências" Will O/Unsplash

Talvez por efeito dos nossos dias tão apressados, das imprevisibilidades que nos rodeiam, do imediatismo das referências que nos inspiram, da efemeridade das vivências, ou da descartabilidade das coisas, a verdade é que, num exercício de paradoxo, elevamos cada vez mais a fasquia do amor.

Queremos amores redentores, salvíficos e protectores, que sejam capazes de nos fazer esquecer o resto (o tanto) que corre menos bem nas nossas vidas.

Queremos amores seguros, capazes de neutralizar a incerteza e a precariedade das nossas existências.

Queremos amores que durem para sempre, mas que, ainda assim, não percam a novidade nem caiam na rotina.

Queremos amores que sejam iguais aos dos filmes e, agora, que sejam iguais aos dos “amigos” do Facebook e do Instagram: amores permanentemente felizes e permanentemente apaixonados, como se o amor coubesse, inteiro, numa selfie, com um qualquer mar turquesa como pano ao fundo.

Queremos, enfim, amores perfeitos e uma vida de amor (per)feita!

Mas o amor não cabe mesmo numa selfie, porque as selfies não se fazem nas manhãs rabugentas e de olhos inchados. E não se fazem nas palavras mais impacientes, nem nos olhares mais distraídos, nem nas mentiras piedosas, contadas, apenas, para iludir a crueza da vida.

Não se fazem, as selfies, no cansaço dos fins de tarde, nas contas a pagar ao fim do mês, nos monólogos intermináveis da sogra, ou no sono breve das noites apressadas.

Nem se fazem nos pijamas de flanela a precisar de reforma, na roupa interior de elásticos frouxos, ou nas madrugadas de angústia, passadas na urgência de um hospital pediátrico.

O amor das selfies é o amor feito por encomenda e que enche, nestes dias, as montras das lojas: o amor romântico dos corações encarnados, das flores e das caixas de bombons; o amor algo pueril e ingénuo dos ursinhos de peluche; o amor ardente e apaixonado da lingerie de renda.

O amor das selfies é o amor que se mostra, e se usa, e se gasta, nessa impaciência que sempre temos para com a imperfeição e a demora.

Porque é imperfeito o amor. Cansa-se e cansa-nos. É refilão e, muitas vezes, descuidado. Tem caprichos e exigências. Dá vontade de fugir, mesmo quando só queremos ficar. É inquieto e trabalhoso. Dói e dói-nos, cura e cura-nos.

E é demorado, o amor. Tem, na sua essência, o tempo das coisas que crescem lentamente e que precisam de ser cuidadas para poder crescer.

Mas cuidar do amor é, também, cuidar da mudança: da nossa mudança, da mudança do outro, da mudança do próprio amor.

A mudança que transforma a agitação adolescente, feita de borboletas a voltear na barriga, na tranquilidade madura que se detém num olhar demorado e silencioso.

E que substitui a urgência de dois corpos frementes, pela certeza de duas mãos que se fecham num afago, ao mesmo tempo que troca as juras hiperbólicas e opadas, pelo silêncio simples da cumplicidade.

A mudança que aceita a rotina, e aceita o cansaço, e aceita, mesmo, o tédio de alguns momentos.

Cuidar do amor é cuidar de uma obra sempre inacabada, de uma espécie de edifício multiforme, que se constrói e cresce ao sabor dos tempos. E que, no seu crescimento, nos faz crescer também e nos torna outros. Talvez melhores. Talvez diferentes, apenas.

O amor inteiro, das histórias verdadeiras, não cabe nas selfies nem nas montras de São Valentim. Ou sim, cabe, mas só nalguns dias.

O amor genuíno, das vidas a sério, é feliz, mas com intermitências. É o amor que escolhe não desistir e que vai resistindo ao passar da vida. E, às vezes, é o amor que até consegue mesmo durar para sempre.

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