Opinião

A política do megafone

O tempo de antena a qualquer custo, o soundbyte fácil contra o malogrado politicamente correto, eis o plano que tem feito escola nalguns países pela Europa. Pior. Também já o faz entre nós,

A série The Loudest Voice retrata a ascensão do mentor da Fox News, Roger Allies. Além da excelente produção, suportada por um grande elenco, é mais um fator que nos ajuda a explicar o nascimento do trumpismo nos EUA.

Vale a pena vê-la para perceber que nenhuma visão era demasiado catastrófica quando ainda estávamos em 2015 e a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA era apenas uma miragem para muitos. Um catastrofismo que atingiu o seu ponto mais alto na semana passada com o desenvolvimento e desfecho do processo de impeachment. Se o corrompimento a que chegou o partido republicano americano para suportar o seu próprio poder chega a ser nauseante, colocando em causa o sistema de check and balances que entre outros fatores limitaria alguém deslocado e destrutivo como Trump, com esta série percebemos que o apoio a este modus operandi vem de há largos anos provando que não é novidade nas franjas que se apoderaram da génese do partido republicano.

Desde a difamação contra tudo e contra todos, o justicialismo através de meias verdades, as fake news pura e duras. O tempo de antena a qualquer custo, o soundbyte fácil contra o malogrado politicamente correto (como se o incorreto por si só significasse o que seja), eis o plano que tão bem tem resultado e feito escola nalguns países pela Europa. Pior. Também já o faz entre nós, sem que alguns dos presumíveis democratas liberais o entendam, acabando por projetá-lo de forma incompreensível e estupidificante. There is no such thing as bad publicity, diz o palerma que os toma por tolos.

Alguns exemplos das últimas semanas no panorama político nacional demonstraram-no, e vêm provar que contrariamente ao que muitas vezes se vaticina, o populismo parlamentar não nasceu com André Ventura e não é um exclusivo da direita nacional.

Vejamos: ainda antes de novembro, Joacine Katar Moreira, em parte por impreparação e arrogância de uma agenda exclusivamente identitária, começava a descredibilizar-se no Parlamento nacional. Essa agenda que ia contra o próprio programa do partido para o qual tinha sido eleita, culminou no desfecho previsível com o Livre a deixar de a querer como sua representante. Hoje, Livre e Joacine, até prova em contrário, são praticamente irrelevantes parlamentarmente.

Traduzindo isto para um caso concreto: a recente proposta apresentada de forma desenquadrada por parte da deputada não deveria ter merecido o eco mediático que a imprensa lhe deu. Mas a verdade é que foi amplificada e com isso veio aquela bujarda a puxar ao racismo de alguém que se alimenta politicamente do mesmo populismo. Além do submundo político das redes sociais onde o Chega já se movimenta como nenhum outro, deu-se a André Ventura um tempo de antena generalizado e fácil que era exatamente o seu objetivo. Mais ou menos de forma inconsciente, assistimos a uma imprensa que também opta pela política do megafone em vez de se focar no que é realmente relevante.

Sobre o CDS-PP, numa das suas primeiras intervenções como líder do partido, FRS descartou qualquer animosidade de base no partido usando a expressão “no CDS não existem Joacines.” Mais um que se aproveitou de um soundbyte que, sem se aperceber, reduziu o CDS ao nível do Livre.

E é isto. A política do megafone entre nós.

Entre uma deputada sem representação parlamentar e outros dois partidos, um em rota ascendente e outro no ver vamos, não é preciso muito para perceber qual deles se sairá melhor nesta forma de fazer política que já se apoderou do mediatismo nacional.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico