Opinião

Congresso do PSD - No reino da ideologia desideologizada

O Congresso do PSD não passou disto: ao centro com o novo CDS e à espreita do PS ou do seu tombo se fizer o que a direita lhe pede.

O PPD/PSD realizou o 39.º congresso em 46 anos de vida. É obra. Nasceu dizendo que era social-democrata com base em alguns deputados liberais, dissidentes da Ação Nacional Popular, o partido do regime fascista.

Em Maio de 1974 mandava o oxigénio da libertação que os partidos se afirmassem contra a direita e apontados ao socialismo. Sá Carneiro assegurava que o PSD não era da direita, era social-democrata. Como se lembrarão (os que viveram a época e os informados) o PS era o partido social-democrata filiado na Internacional Socialista (IS).

Bem tentou o PPD inscrever-se na IS, mas o peso de Mário Soares não o permitiu. Na verdade, o PPD tinha nas direções iniciais um pouco de tudo, até sociais-democratas, e as bases claramente inclinadas à direita e provenientes dessa área, incluindo dos apoiantes do regime anterior.  

O PPD passou a PSD para ver se o termo social-democrata dava mais “modernidade”. Acabou por se afirmar um partido de centro-direita e com uma viragem clara para o neoliberalismo de que é exemplo vivo a política do PSD com Passos Coelho aliado a Portas. Uma política de direita, sem rodriguinhos.

Uma vez derrotada a coligação Passos/Portas/M. Luís/Cristas, Rio ganhou a liderança e vem agitando a bússola que o move como sendo um partido de centro, o que como se sabe é incompatível com a social-democracia que (independentemente da autenticidade) sempre se afirmou como pertencendo à esquerda no panorama da Europa. A social-democracia afirmava-se de esquerda na França, Grã-Bretanha, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Grécia, Alemanha, Itália etc. Outra coisa era saber se o era. Portanto, ser do centro e simultaneamente social-democrata é uma contradição insanável.

Mas o problema maior é que a nova ordem mundial caracteriza-se por ser uma espécie de semáforo com uma cor só, a do dinheiro, pois dinheiro é o que têm os que mandam nos que governam. Nestas circunstâncias as políticas tendem a ser iguais porque todos os do centrão defendem o mesmo.

Saem dos governos para os bancos, para os conselhos de administração das grandes corporações e gravitam em torno da divindade máxima, o Deus dinheiro. Acabou de falecer um exemplo vivo, Álvaro Barreto.

Face ao desencanto dos cidadãos neste tráfico de poder surgem ideias fantasiosas como a de abrir os partidos a quem quiser. Ou seja os partidos deixam de ser uma organização com um corpo de ideias que sustentam um programa, e passam a ser um local aberto a todos os que queiram votar, tanto faz, da esquerda à direita. Chamam a isto abrir. No entanto, trata-se de fechar as reais possibilidades de aparecimento de verdadeiras alternativas.

Em vez de obrigar os partidos a cumprirem e a assumir a coragem de romper com essa permanente traição ao eleitorado, envereda-se pelo caminho da homogeneização da sociedade no reino dos mercados.

Se todos são chamados a votar no PS e no PSD, e sendo todos os mesmos, o resultado é sempre mais do mesmo, a tal política “europeia” da Alemanha, as tais reformas que estão sempre a pedir mais reformas, as tais concessões aos privados, mais privatizações, menos setor público, mais salários baixos, mais dinheiro para os que já têm muitíssimo. Aprofundar as desigualdades e criar uma multitudinária legião de governantes por esse mundo fora capazes de guardar os donos do mundo, nem que seja à custa da miséria, da fome e do próprio planeta. Os multibilionários é que sabem. Chamam a isto limpeza de ideologias, mesmo que seja um programa intensamente ideológico, com a ideia que os cidadãos valem pouco, se comparados com os acionistas. O Congresso do PSD não passou disto. Ao centro com o novo CDS e à espreita do PS ou do seu tombo se fizer o que a direita lhe pede.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico