Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
Conto

Aos filhos dá-se tudo

Afinal de contas, não lhe dera a lua, mas um sonho. Dera-lhe o satélite de fantasia que lhe podia dar.

Há uns anos ofereceu a lua à filha. É verdade. Arranjou um registo de propriedade e tudo, e colaram-no juntas na porta do roupeiro do quarto da pequena. Voltavam para casa à noite, depois de terem jantado no sítio preferido da menina, onde só há bifes, batatas fritas e meias baguetes generosamente barradas com manteiga de alho. A pequena é fã de bitoques, tal qual a mãe. Nasceu assim, carnívora como uma pequena leoa. Está-lhe nos genes. Vinham, então, para casa a pé — nessa altura ainda moravam no centro da cidade. O céu estava limpo e via-se a lua, tão exposta como um queijo gordo e reluzente, a vigiá-las de cima. A mãe teve uma ideia e apontou para o céu:

— Filha, queres que te ofereça a lua?

A menina olhou para o grande círculo no céu. Não respondeu logo. Do baixo dos seus cinco anos, dirigiu o pequeno rosto desconfiado na direcção da mãe.

– Pode-se comprar a lua? – perguntou-lhe com sinceridade.

A mãe não sabia se a lua podia ser comprada, mas certamente poderia ser oferecida, uma vez que não pertencia a ninguém. A pequena descerrou no rosto um grande e perfeito sorriso de leite.

– Quero, mãe! – disse, num entusiasmo pueril irreproduzível.

E assim foi. Chegaram a casa, redigiram o documento e fizeram uma ilustração juntas. Mesmo antes de selarem o registo com fita-cola, a filha perguntou-lhe:

— Queres um bocado da lua para ti, mãe? Eu dou-te.

A mãe emocionou-se pelo gesto, mas declinou educadamente a oferta. A lua era só para a menina; assim seria dali em diante.

Mais tarde, no jeito recorrente das mães para duvidarem de si próprias, ficou a pensar se estaria correcto aquilo que tinha feito. Se, quando verificada a nulidade do documento, não seria posta em causa a sua credibilidade. Pensou melhor. Supôs que não. Afinal de contas, não lhe dera a lua, mas um sonho. Dera-lhe o satélite de fantasia que lhe podia dar.

Ultimamente, a mãe anda a pensar em oferecer-lhe o mar. Uma ripa de Atlântico, só um pedaço. Não quer ser gananciosa, agora que ela e a filha já sabem que podem fazer o mesmo com o oceano. É só uma questão de o localizarem e de o assinalarem no mapa. E de fazerem um registo de propriedade, claro, com a devida ilustração. Tem de ser um documento a sério. Desta vez, a mãe pensa partilhar o investimento com a menina — uma tira de mar, com a devida fauna que lhe compete. Com sorte, ainda lhes calham golfinhos e uma raia. Seria justo receber-se alguma surpresa, devido ao enorme investimento.

A mãe, que pensa demasiado, como é comum às matriarcas, ficou ainda a cogitar se devia oferecer tudo aos filhos. E concluiu que sim. Pelo menos, tudo o que não custe dinheiro. Dar-lhes a extensão máxima da nossa criatividade. A mãe acredita que são músculos que se treinam, tanto a dádiva como a imaginação. Fazê-lo em conjunto com os filhos torna-se uma prática memorável. Se um dia, quando a mãe já cá não estiver, for recordada como a pessoa que lhe ofereceu a lua, já foi incrível ter vivido.