Papa não vai abrir a porta à ordenação de homens casados

Exortação pós-sinodal de Francisco não contempla a possibilidade de abrir a porta à ordenação de homens casados nas zonas remotas da Amazónia. A palavra celibato não surge sequer no documento intitulado “Querida Amazónia”.

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O Papa Francisco durante uma missa celebrada no sínodo dedicado à Amazónia LUSA/GIUSEPPE LAMI

Já é oficial: o Papa Francisco não vai avançar com a possibilidade de ordenação de homens casados como forma de responder à escassez de padres nas regiões mais remotas do mundo. A exortação apostólica “Querida Amazónia”, aguardada com expectativa desde que os bispos reunidos em Outubro no sínodo da Amazónia lançaram esse repto, passa completamente ao lado da polémica questão do fim do celibato. 

Em vez disso, o Papa preferiu apelar a uma maior presença de missionários na Amazónia e a formas de liderança que envolvam leigos, religiosas e diáconos permanentes. “Não se trata apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados que possam celebrar a eucaristia. Isso seria um objectivo muito limitado, se não procurássemos também suscitar uma nova vida nas comunidades”, lê-se no documento.

Sem fazer quaisquer referências directas ao celibato, o que o Papa propõe para reforçar a “precária” presença da Igreja Católica na Amazónia é que os diáconos permanentes - que “deveriam ser muito mais” - e “as religiosas e os próprios leigos assumam responsabilidades importantes em ordem ao crescimento das comunidades e maturem no exercício de tais funções, graças a um adequado acompanhamento”. “Esta premente necessidade leva-me a exortar todos os bispos, especialmente os da América Latina, a promover a oração pelas vocações sacerdotais e também a ser mais generosos, levando aqueles que demonstram vocação missionária a optarem pela Amazónia”, escreve ainda Francisco, insistindo na necessidade de ordenar mais diáconos permanentes - o primeiro grau do sacramento da Ordem - a que podem aceder homens casados.

Um diácono pode baptizar, presidir a casamentos, celebrar a liturgia da palavra e pregar, mas, ao contrário dos sacerdotes, não pode celebrar missa, confessar os fiéis nem administrar a unção aos doentes. 

No sínodo de Outubro do ano passado, dedicado à Amazónia, os bispos tinham proposto, com 118 votos a favor e 41 contra, que a Igreja reflectisse sobre a ordenação sacerdotal de homens casados, desde que “idóneos e reconhecidos pela comunidade” e que, sendo detentores de “um diaconado permanente fecundo”, recebessem formação adequada para o presbiterado, “podendo ter família legitimamente constituída e estável”.

O documento divulgado esta quarta-feira cai como um balde de água fria entre os muitos que, a partir do interior da Igreja, reclamam o fim do celibato obrigatório, tendo visto no documento final do sínodo um sinal robusto de que haveria mudanças neste campo. Ao invés, a exortação “Querida Amazónia” centra-se mais nas questões ambientais, sociais e políticas que oprimem o povo de uma região que abarca nove países (Brasil, Equador, Venezuela, Suriname, Peru, Colômbia, Bolívia, Guiana e Guiana Francesa), num total de sete milhões de quilómetros quadrados.

O Papa terá alegado, numa conversa anteontem com os bispos norte-americanos, que não sentiu que a questão das excepções ao celibato obrigatório se pusesse com urgência, apesar de reconhecer que se impõe aumentar o leque de funções e a preparação dos leigos, no sentido de que estes possam ajudar a propagar a fé católica e os seus rituais, nomeadamente na Amazónia, em cujos recantos há católicos que vêem um padre apenas uma vez por ano, conforme adiantou também o diário italiano La Stampa, citando um dos presentes no referido encontro com Francisco, o bispo de Santa Fé, John Charles Wester.

Francisco terá admitido reflectir na falta de padres que afecta várias regiões do mundo onde a Igreja Católica se quer presente, mas no futuro. Para já, a celebração da missa continuará reservada a padres celibatários. 

Exortação ficou pronta em Dezembro

Ao recusar-se a levantar uma restrição em vigor há mil anos, Francisco suavizou o braço-de-ferro com o todo-poderoso sector conservador da Igreja Católica, bem enraizado nos Estados Unidos da América, mas não só, e cujos principais responsáveis chegaram a ameaçar acusá-lo de heresia, o que equivale ao lançamento de uma bomba no mundo católico. Um dos episódios mais recentes desta oposição ao ímpeto reformador de Francisco ocorreu no mês passado, quando, numa altura em que se aguardava esta decisão de Francisco, o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e para a disciplina dos Sacramentos, tentou associar como co-autor do seu livro Das profundezas dos Nossos Corações o nome do anterior Papa Bento XVI — a obra, refira-se, chega nesta quarta-feira às bancas portuguesas, com a chancela da editora Lucerna.

Numa clara tentativa de condicionar Francisco, o cardeal guineense de 72 anos procura estabelecer um laço ontológico-sacramental entre o sacerdócio e o celibato e defende que qualquer afrouxamento desse laço porá em causa os pontificados anteriores. A sua tentativa de avocar o nome de Joseph Ratzinger ao livro resultou, porém, gorada, dado que este veio desmentir, por intermédio do seu secretário particular, que tivesse escrito o livro a quatro mãos com o guineense. De todo o modo, e segundo o La Stampa, esta exortação papal ficou concluída em Dezembro, ou seja, antes de a polémica sobre o livro ter rebentado nas páginas dos jornais de todo o mundo. 

Na intervenção que encerrou os trabalhos sinodais, Francisco propusera-se também reconvocar uma comissão responsável por estudar a história das mulheres diácono nos primeiros séculos da Igreja Católica, numa altura em que se supõe que elas prestavam serviços pastorais e litúrgicos, sobretudo em Constantinopla, presidindo a baptizados, casamentos e funerais e até mesmo assumindo a gestão de paróquias, desde que devidamente autorizadas pelos bispos. Como pano de fundo, estava a reivindicação da possibilidade de elas poderem vir a ser ordenadas diácono. 

As forças conservadoras da Igreja Católica também se opõem a esta possibilidade, mas o Papa tem-se mostrado moderadamente receptivo à possibilidade de restaurar o diaconado feminino. Em 2016 chegou, aliás, a criar uma comissão responsável por estudar as origens do diaconado feminino, cujo relatório foi, porém, inconclusivo (não quanto à existência de mulheres diácono, mas quanto ao facto de serem ou não ordenadas). No documento final do sínodo sobre a Amazónia, os bispos dispuseram-se a dialogar com os membros dessa comissão e propuseram, num dos vários capítulos dedicados às mulheres, que a Igreja assuma a liderança das mulheres, “que as reconheça e promova”.

Apesar de, aparentemente, escamotear essa possibilidade - rejeitando propostas que visem “clericalizar as mulheres” -, o documento papal defende a criação de “novos serviços e carismas femininos”. “A situação actual exige que estimulemos o aparecimento doutros serviços e carismas femininos que dêem resposta às necessidades específicas dos povos amazónicos neste momento histórico”, refere. 

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