A ARCOmadrid com olho nos artistas e sem medo do coronavírus

Treze galerias portuguesas estarão presentes na 39.ª edição da feira de arte contemporânea da capital espanhola, que pela primeira vez foca isoladamente um artista: o norte-americano de origem cubana Félix González-Torres.

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Félix González-Torres será o artista em destaque nesta edição, com a instalação It’s Just a Matter of Time a invadir vários espaços de Madrid DR

Os responsáveis pela ARCOmadrid não receiam, a duas semanas do arranque da 39.ª edição da feira de arte contemporânea da capital espanhola, que o surto epidémico provocado pelo novo coronavírus afecte este evento no qual estão inscritas 209 galerias, 13 delas portuguesas. “Não tivemos nenhum cancelamento. A presença da Ásia na ARCO é nula, por isso não tivemos esse problema”, explicou ao PÚBLICO esta quarta-feira, de passagem por Lisboa para uma conferência de imprensa, Eduardo López-Puertas, director do IFEMA, organismo que superintende o recinto de feiras de Madrid.

Em Barcelona, o Mobile World Congress acabou cancelado após mais de 20 desistências contabilizadas, entre gigantes como o Facebook ou a Sony, na sequência da crise de saúde pública que já provocou mais de 1100 mortes na China e levou a Organização Mundial de Saúde a declarar uma emergência global. Já na semana passada tinha também sido cancelada a edição deste ano da Art Basel Hong Kong, marcada para os dias 19 e 21 de Março.

Com 30 países representados, a 39.ª ARCOmadrid, que decorrerá de 26 de Fevereiro a 1 de Março, assume a América Latina como território preferencial; ao contrário porém do que aconteceu no ano passado, em que o Peru foi o país convidado, esta edição foca especificamente a obra de um artista, o norte-americano de origem cubana Félix González-Torres (1957-1996), e o modo como este influenciou as práticas artísticas contemporâneas. Se a ARCOmadrid já ensaiou organizar a feira em redor de um tema, como na edição de 2018, dedicada ao futuro, será uma estreia esta aproximação à obra de um artista, nomeadamente à instalação It’s Just a Matter of Time (1992), um simples placard publicitário, frase impressa sobre fundo negro, que interpela os fantasmas do espectador. Os de Félix González-Torres estavam então relacionados com o crescente número de mortes provocadas pela epidemia da sida, de que viria a morrer quatro anos depois.

Doze destes cartazes, como explicou Maribel López, directora da ARCO, estarão espalhados por Madrid, levando a obra de Félix González-Torres para os suportes normalmente ocupados pela publicidade na paisagem urbana, das estações de metro aos outdoors.

Já no recinto da feira, a obra de Félix González-Torres será vista através dos olhos de 16 artistas por ele influenciados, numa secção especial intitulada It’s Just a Matter of Time, com curadoria de Alejandro Cesarco e Mason Leaver-Yap. Numa feira em que galerias e galeristas costumam ser o centro, Maribel López, secundada pelo director do IFEMA, quer dar “uma maior visibilidade à figura do artista”, à “investigação” e ao “descobrimento” que uma obra deve suscitar; nesse contexto, a curadoria dos stands do programa geral é cada vez mais importante, defende a directora. De resto, 40% das galerias já chegam à feira com programas focados num ou dois artistas, encorajando um conhecimento mais profundo das suas obras, diz Eduardo López-Puertas.

Entre as galerias que este ano marcarão a sua presença em Madrid, Maribel López citou a presença da Buchholz e da Barbara Weiss, ambas de Berlim, mas também da Jan Mot (Bruxelas), da Jaqueline Martins (São Paulo) ou da Franco Noero (Turim), que mostrarão trabalhos de Maria Eichhorn, Tony Conrad, Henrik Olesen, Jac Leirner, Manon de Boer (esta actualmente em destaque com uma individual na Gulbenkian), David Lamelas ou Hudinilson Jr.

O número de galerias portuguesas na ARCOmadrid será o mesmo do ano passado, adiantou Vera Cortês, a galerista portuguesa que integra o comité organizador. No programa Opening, entra a Balcony (Lisboa), que ali estará ao lado da Lehmann + Silva (Porto), compensando a saída da Monitor, que tem porta aberta em Roma e Lisboa, do programa geral, onde se concentra a maioria das galerias portuguesas (as lisboetas 3+1, Bruno Múrias, Cristina Guerra, Filomena Soares, Francisco Fino, Madragoa, Pedro Cera e Vera Cortês, bem como as portuenses Nuno Centeno e Quadrado Azul). No programa Diálogos, está presente a Galeria Miguel Nabinho, com as artistas Luísa Cunha e Salomé Lamas. Mas, como lembrou a directora da ARCO, há 20 outras galerias que também apresentam artistas portugueses, encorpando uma representação nacional que representa 10% dos artistas da feira e mostra “como a presença portuguesa faz parte do ADN da ARCOmadrid”.

Depois do “êxito da ARCOlisboa, a primeira vez que a ARCO saiu de Madrid”, lembrou Eduardo López-Puertas, o IFEMA “está a trabalhar na oportunidade de a feira se estender a um país da América Latina”, reconheceu o responsável, confirmando uma notícia avançada esta semana pelo jornal espanhol El País. O Chile, porém, é apenas uma hipótese, como os outros países da região, Brasil incluído.

Notícia corrigida às 10h39 de 13 de Fevereiro: grafia do nome do artista Félix González-Torres​ na entrada da notícia