Aplicação na China alerta pessoas quando há “contacto próximo” com novo coronavírus

Câmaras de vigilância com tecnologia de reconhecimento facial e monitorização de temperatura também estão a ser utilizadas à entrada de estações de transportes públicos para detectar passageiros com indícios de febre.

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A chinesa SenseTime diz que está a desenvolver tecnologia de reconhecimento facial que funciona mesmo com máscaras LUSA/ALEX PLAVEVSKI

Os cidadãos chineses podem instalar uma aplicação móvel que os alerta quando há “contacto próximo” com alguém potencialmente infectado com o novo coronavírus, desde o último fim-de-semana. Foi apresentada pela Comissão Nacional de Saúde da China – em comunicado, este departamento do Governo explica que o objectivo é “aproveitar a tecnologia de informação disponível para ganhar a guerra da ‘epidemia’”.

Os utilizadores podem-se registar na aplicação através de um QR Code, uma espécie de código de barras que é lido através de certas aplicações recorrendo à câmara do telemóvel. No caso da aplicação chinesa, funciona com o WeChat e o QQ, que são o equivalente chinês a serviços de mensagens como o WhatsApp e o Messenger. Depois, as pessoas devem preencher um formulário com o nome, número de telemóvel e número de identidade para saber se estiveram em “contacto próximo” com o novo coronavírus.

Os utilizadores que recebem um alerta de “contacto de risco” devem ficar em casa e contactar as autoridades de saúde.

No comunicado da Comissão Nacional de Saúde da China, publicado no site da agência estatal Xinhua, a equipa por detrás da aplicação explica que “contacto próximo” refere-se a casos de coronavírus confirmados ou casos suspeitos que estiveram próximas do utilizador “sem qualquer tipo de protecção”, mesmo que ainda não apresentassem sintomas. Alguns exemplos de “contacto próximo” incluem pessoas que trabalham juntas, estudam nas mesmas salas, vivem na mesma casa ou que frequentaram os mesmos transportes públicos. No caso de comboios com janelas fechadas, considera-se que o utilizador esteve em contacto próximo com todas as pessoas na mesma carruagem que ele, enquanto que num avião o grupo inclui os hospedeiros de bordo e os passageiros na fila do utilizador e nas três filas para a frente e para trás.

Apesar do governo descrever a informação disponibilizada nos alertas como “precisa e de confiança”, há poucos detalhes sobre a origem exacta da informação, os dados que recolhe das pessoas, ou como é feito o cruzamentos dos dados. A empresa estatal China Electronics Technology Group  (CETC), responsável pela programação da aplicação, diz que o serviço inclui informação da Comissão Nacional de Saúde, Ministério dos Transportes, Caminhos de Ferro da China, e a Administração de Aviação Civil da China.

Câmaras que procuram febre e drones

Este não é o primeiro exemplo de como o governo está a utilizar tecnologias de informação para lutar contra a disseminação do coronavírus que já causou mais de mil mortes e infectou mais de 43.000 pessoas. Câmaras de vigilância, equipadas com tecnologia de reconhecimento facial e monitorização de temperatura também estão a ser utilizadas à entrada de estações de transportes públicos para detectar pessoas com febre e avisar os passageiros que vão viajar nas mesmas carruagens.

“Devemos tirar todo o proveito destas novas tecnologias para encontrar fontes de infecção e contê-las”, disse o epidemiologista chinês Li Lanjuan numa entrevista com a televisão estatal China CCTV no começo de Fevereiro. “Na era da big data e da Internet, o fluxo de movimento de cada pessoa pode ser facilmente acompanhado. Estamos numa era diferente do SARS”, acrescentou Li Lanjuan, numa referência ao síndrome respiratório agudo severo (SARS), que entre Novembro de 2002 e Julho de 2003 matou 774 pessoas em todo o mundo, e também teve origem na China.

Embora numa fase inicial, a popularidade de máscaras na China como método de prevenção de transmissão do novo coronavírus tenha dificultado a leitura de reconhecimento facial feita por algumas câmaras, empresas de inteligência artificial como a SenseTime já anunciaram sistemas capazes de identificar pessoas que usam máscaras.

Em zonas rurais, as autoridades chinesas também estão a usar drones para travar o surto do coronavírus. Relatos da agência de notícias estatal chinesa Xinhua e do jornal Global Times, dão conta de várias aldeias e vilas em zonas rurais com drones a monitorizar as ruas e alertar os cidadãos para usarem máscaras. “Às meninas a comer enquanto andam – por favor coloquem as máscaras. Podem comer quando chegarem a casa”, ouve-se uma polícia a dizer através do altifalante de um dos drones, num vídeo partilhado pelo jornal chinês Global Times.

O uso de tecnologia para monitorizar os cidadãos já é norma na China. Fora do controlo do coronavírus, os usos incluem autorizar o acesso a metros em Xangai e Pequim, e projectar imagens de peões a desrespeitar os sinais de trânsito em Shenzhen em ecrãs gigantes (juntamente com o nome e uma multa via SMS). E desde 2014 que a China está a desenvolver um sistema de crédito social para classificar e hierarquizar cada um dos seus cidadãos a partir dos dados pessoais que entregam às aplicações móveis e serviços públicos. A pontuação pode determinar o acesso ao emprego, o preço dos produtos, o lugar num comboio, ou o tempo que se passa na fila do aeroporto (e a entrada no avião).