Editorial

O coronavírus, Xi e Li

O que acontecerá quando o surto do coronavírus for definitivamente contido é uma incógnita. Do ponto de vista político, o período de quarentena a que a economia chinesa estará sujeita não será inócuo para o país e para os seus dirigentes

Ninguém diria que um vírus seria mais ameaçador e destruidor para a gigante economia chinesa do que sucessivas guerras comerciais com o principal adversário estratégico. A epidemia prolongou as férias do Ano Novo Lunar, que deveriam ter terminado em Janeiro, as cidades esvaziaram-se, as escolas e as fábricas fecharam. As esperanças de crescimento em 2020, na sequência da guerra das tarifas comerciais com os EUA, têm tudo para ser uma previsão gorada. A cada vez mais sofisticada e rica sociedade chinesa, que se tem destacado em sectores tecnológicos de ponta, mostrou-se incapaz de lidar com tamanha ameaça à saúde pública. Pequim pode ter crescido 18% em 2018, ser líder mundial do comércio de mercadorias, ter um mercado externo em expansão e uma capacidade única de reproduzir multimilionários, mas isso não chega para criar uma administração capaz de resolver os problemas da população.

Pequim passou a fase de denegação, tentou acalmar uma população alarmada com a construção supersónica de hospitais e resguardou-se de seguida. Após algumas semanas de recato, o Presidente chinês surgiu nesta segunda-feira em público, num bairro em Pequim, mediu a temperatura, cumprimentou trabalhadores e moradores. Daí até à normalidade social vai uma grande distância. Há uma enorme discrepância entre o exemplo do presidente Xi Jiping, protegendo-se no silêncio, e a coragem do médico Li Wenliang, expondo-se na denúncia. O primeiro encarna o autoritarismo e o peso de um Estado que não tolera qualquer dissidência, o segundo foi um exemplo de serviço público e de disponibilidade para os outros, ao alertar na hora certa para a epidemia que se adivinhava.

O que acontecerá quando o surto do coronavírus for definitivamente contido é uma incógnita. Do ponto de vista político, o período de quarentena a que a economia chinesa estará sujeita não será inócuo para o país e para os seus dirigentes, mas o futuro de Xi Jiping dependerá muito mais das lutas no interior da cúpula do partido do que do futuro de Chen Qiushi, um advogado que tem divulgado informações sobre o trabalho das autoridades chinesas em Wuhan e que terá sido colocado em “quarentena forçada” e em paradeiro desconhecido. A não ser que o vírus de Hong Kong alastre ao continente como resposta à tardia propagação do coronavírus. Há uma diferença entre o interesse do partido e o interesse público na China. Essa é a diferença entre Xi e Li.

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