Opinião

Crónica de um congresso

No final, o PSD terá de compreender que, para ter sucesso, é necessário juntar todas as sensibilidades do partido, discutir soluções, traçar um rumo preciso e arregaçar as mangas, porque todos somos poucos.

O XXXVIII Congresso Nacional do PSD anunciava-se como determinante para a definição do novo modelo de liderança do PSD, assim como da estabilidade interna que poderia vir a ser concedida ao presidente Rui Rio.

Os discursos, tanto dos vencedores como dos vencidos, anunciavam (com respetivamente menor ou maior relevância) que os resultados dos últimos atos eleitorais foram de derrota. Que o partido perdeu eleitores, perdeu militantes ativos, perdeu apoiantes, especialmente nos grandes centros urbanos. Que o PSD está em risco de se tornar irrelevante porque estamos a perder a mensagem diferenciadora e de esperança a que habituámos os portugueses.

A Social Democracia Portuguesa tem sido vanguardista nas reformas e visionária nos temas. A título de exemplo muitos recordaram Carlos Pimenta, que já promovia a defesa do ambiente na década de oitenta do século passado quando o PAN ainda nem pensava ser projeto político.

E mais do que as bandeiras, foi a constatação de que o preço político pago pelo PSD para mais uma vez salvar Portugal da ruína criada por anos de governação socialista estava a ser muito alto e muito injusto.

Também muito se falou sobre a estabilidade interna.

Do lado de Rui Rio há que destacar as intervenções de José Silvano e Salvador Malheiro, dois discursos muito diferentes mas que demonstram que Rui Rio tem uma estratégia montada. Silvano será o elemento do aparelho para preparar os próximos desafios (regionais e autárquicas) e Malheiro procurará ser o “ideólogo”, o elemento que fala para fora e que tentará mobilizar e unir o partido em torno da mensagem do Presidente.

Do outro lado, Luís Montenegro pretendeu passar duas mensagens. Uma mais clara, outra mais subliminar: que o PSD deverá focar-se no combate ao PS e, de forma mais subliminar, que ele próprio irá continuar a ser uma alternativa interna.

Miguel Pinto Luz centrou a sua mensagem no conceito de que a unidade é construída à volta das ideias, e que as suas eram agora de todos, reforçando que o futuro continuará a dizer presente, apelando a novos rostos para os desafios que se avizinham.

Porém, a surpresa do congresso foi a eleição de Paulo Colaço como Presidente da Jurisdição. Importa realçar que foi uma vitória das bases e não deste ou daquele candidato (aliás basta analisar os resultados para compreender que ele teve votos dos três candidatos).

E é sobre Paulo Colaço que recai o momento menos feliz do congresso, quando já depois de se saber que era candidato e ter sido um dos primeiros a inscrever-se para discursar, foi só chamado pela mesa já de madrugada. No futuro tem de existir mais transparência da mesa, indicando publicamente as ordens de inscrição.

No final, Rui Rio discursou para o país, e traçou as linhas estratégicas para as eleições regionais e autárquicas, identificou um país mergulhado em inúmeros problemas, à espera de respostas, e um Governo perito em propaganda, mestre na arte da ilusão, mas absolutamente inexistente em ação.

No final, o PSD terá de compreender que, para ter sucesso, é necessário juntar todas as sensibilidades do partido, discutir soluções, traçar um rumo preciso e arregaçar as mangas, porque todos somos poucos.

Nos próximos meses continuará essa discussão e dela nascerá o caminho e o capital de esperança que pode fazer mover Portugal.

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