Amor, África: um livro de memórias de romance, guerra e sobrevivência
Danielle Paquette/The Washington Post

Ele só quer fugir da guerra. A sua melhor hipótese: dançar até ao estrelato

Amiri Ag Abdoulaye, de 18 anos, fugiu da violência brutal no Mali. Agora, refugiado no Burkina Faso, encontrou um escape que pode ser o seu passaporte para o mundo: “Esqueço-me de onde estou quando danço.”

Quando se move ao som da música, esquece-se dos cadáveres. Esquece as horas mais negras de uma vida passada a fugir de terroristas que destruíram a casa da sua infância e agora ameaçam roubar-lhe o seu porto seguro.

Aos 18 anos, quando Amiri Ag Abdoulaye fecha os olhos, está num palco em Paris ou em Nova Iorque. “Esqueço-me de onde estou quando danço”, diz o jovem, refugiado há oito anos, que vê na sua paixão o seu plano A. “É com isto que eu vou sair [do Burkina Faso].”

Combatentes ligados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda despejaram a sua família e milhões de burquinos das suas casas no campo, matando milhares numa campanha cada vez mais sangrenta para construir um novo e vasto reduto na África Ocidental.

O Burkina Faso, um país agrícola com cerca de 20 milhões de habitantes, está a ceder perante os extremistas a uma velocidade alarmante, com violência a emergir em novas áreas a Norte e Oeste quase todas as semanas, esvaziando aldeias. Só em 2019, o número de burquinos deslocados disparou de 87 mil para 650 mil, de acordo com as Nações Unidas, sem abrandamento à vista.

As pessoas estão a abandonar a inquietude do interior pela capital, Ouagadougou, na esperança de que a proximidade ao palácio presidencial ofereça mais segurança, enquanto o exército, apoiado pelas tropas francesas, se debate nesta batalha pelo futuro do país.

Abdoulaye, um adolescente nervoso com caracóis à estrela da pop, está entre os desalojados. Tanto são pessoas vindas da sua Mali natal, que escaparam para o vizinho Burkina Faso depois de o conflito estalar em 2012, como burquinos, que abriram as portas aos refugiados, só para depois serem eles mesmos a fazer as malas quando os terroristas invadiram a fronteira.

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“Acontece tão depressa”, conta Abdoulaye: mais uma segunda-feira, mais um ataque, mais uma família que acaba a correr pelos campos de milho e estradas de terra batida. Sabe que pessoas como ele esperam anos ou décadas para abandonar zonas de guerra – se é que a oportunidade alguma vez surge. Tem que se destacar para ter uma hipótese.

Mais de 1,4 milhões de pessoas em todo o mundo precisavam de ser “urgentemente” realojadas em 2019, declarava as Nações Unidas, e menos de 60 mil viram o seu desejo realizar-se. O resto fica em campos de refugiados, a viver em tendas ou outras habitações precárias. As crianças não vão à escola. A vida entra num limbo.

Abdoulaye teme ficar à espera eternamente. Dança no banho, na rua, na fila para o peixe e arroz — “em todo o lado”, revela, “a toda a hora”.

Dançar, com a violência à espreita

Lembra-se de quando descobriu a dança – foi amor à primeira vista. Uma trupe de bailarinos visitou o campo de refugiados de Mentao, no Norte do Burkina Faso, onde a sua família foi parar depois de a guerra chegar à sua terra-natal, no centro do Mali. Ensinaram Abdoulaye, que tinha na altura 12 anos, e outras crianças na cidade de tendas com cerca de 12 mil habitantes a agachar, pular e girar ao som de música que lhe dava borboletas na barriga. Foi a primeira vez em meses que não pensou na fuga de três dias na carrinha de um vizinho ou nos corpos à beira da estrada.

Tornou-se, rapidamente, num pequeno artista em Mentao, cantando na sua língua materna, o tamasheq, enquanto dançava ao estilo da África Ocidental. Um voluntário deu-lhe depois uma guitarra acústica. Acordou assim com uma razão para viver: cantar, dançar. Cantar, dançar. Melhorar, melhorar, melhorar.

De vez em quando, Abdoulaye podia apanhar um autocarro de seis horas para a capital e trabalhar com professores num estúdio chamado La Termitière – a casa-mãe dos coreógrafos burquinos Salia Sanou e Seydou Boro.

As aulas fizeram-no seguir em frente. Estava empolgado por melhorar a cada sessão, mas invejava secretamente os bailarinos que podiam pagar as propinas para praticar todos os dias. Tinham multidões aos seus pés, a aplaudir acaloradamente. A dança era o passaporte deles para o mundo. Como é que ele podia dançar com aquele poder? Com aquela liberdade?

Assim se passaram três anos: a sonhar acordado durante a pacatez dos dias. Até que a violência chegou ao Burkina Faso em 2016, com um ataque terrorista num hotel e restaurante de luxo, vitimando 30 pessoas. Militantes islâmicos começaram a atacar mercados, igrejas e escolas. Puseram bombas nas estradas. Roubaram carros e raptaram rapazes – recrutando-os de arma apontada, para a sua missão.

O mundo de Abdoulaye estava a desmoronar-se outra vez. Subitamente, era um perigo percorrer a estrada entre o campo de refugiados e o estúdio. “Se fosse, sabia que podia morrer”, assume, “mas se não fosse, morreria de outra forma”. Escapuliu-se para as aulas, a suar o caminho todo. Continuou mesmo quando atiradores, camuflados e com turbantes, começaram a atacar aldeias cada vez mais perto de Mentao.

Os atacantes, que se julgava terem armas automáticas vindas da Líbia, estavam a tentar há anos estabelecer um califado na África Ocidental. Tinham-se infiltrado e atravessado fronteiras, apesar da intervenção militar em peso da França e das Nações Unidas, e rapidamente subjugaram o governo sem meios do Burkina Faso.

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O campo de refugiados de Abdoulaye estava terrivelmente vulnerável. No fim do Outono, a ajuda humanitária já não conseguia lá chegar – os extremistas tinham roubado carros, raptado colaboradores e disparado contra carros na estrada principal. A Embaixada dos EUA retirou os filhos dos seus funcionários do Burkina Faso e actualizou os avisos de viagem: “Terroristas podem levar a cabo ataques em qualquer lugar, com pouco ou nenhum aviso.”

Então, um dia, em Novembro, o primo de Abdoulaye regressou de Mentao agitado e coberto de sangue. Escapara a uma emboscada. A família tinha de chegar a Ouagadougou rapidamente, declarou. Compraram bilhetes só de ida.

Sonhar com um bilhete de saída

La Termitière está escondida. “Sob lixo e poeira”, ironiza o co-fundador, Salia Sanou, proeminente coreógrafo que cresceu no Oeste do Burkina Faso. Os alunos chegam lá de mota, desbravando estradas esburacadas, estábulos ardidos e casas de betão, naquele que era um dos bairros mais degradados de Ouagadougou.

Sanou, de 50 anos, construiu o campus ali, em 2006, com a ajuda de fundos do governo e donativos de França. Queria limpar as ruas e dar a jovens sem rumo um passatempo produtivo – e até carreiras. E foi assim que se ligou ao campo de refugiados de Abdoulaye.

“A dança”, afirma, “dá-lhes confiança para reconstruir as suas vidas”. É uma espécie de programa de intercâmbio cultural. Os refugiados de Mali fazem par com os bailarinos do Burkina Faso. Preparam coreografias baseadas em solidão, amor e guerra.

“Do nada, numa fracção de segundo, tudo é virado do avesso”, lê-se na descrição de um espectáculo no site do estúdio. “Uma tempestade devastadora deixa-nos desamparados.” Actuam regularmente, enquanto a violência alastra por Ouagadougou. “Todos o sentimos no estômago”, declara Sanou, “mas recusamo-nos a deixar de viver”.

Abdoulaye, que está a usar uma camisola vermelha da Nike, vagueia atrás do coreógrafo. “Ele podia fazer isto profissionalmente”, confirma Sanou, a apontar para ele. O adolescente sorri com o elogio, numa tarde de fim de Janeiro, dando um “choca aí” aos amigos que fez ao longo dos anos. “Aí está a nossa estrela”, grita uma mulher.

Recomeçou a sua vida, mais uma vez, a partir de um pequeno apartamento nos arredores da cidade. Partilha um quarto com a mãe, o pai e a irmã. Dependem da bondade dos vizinhos à medida que procuram biscates.

Passa cada segundo que pode no La Termitière. Na bancada, enquanto observa os alunos mais velhos a praticar, regressa o habitual anseio. Pudesse ele juntar-se a eles no tapete. A tempo inteiro. Não tem dinheiro, mas já ouviu que se podem obter bolsas para treinar em estúdios no estrangeiro. Alguns até têm vistos de talento. Não sabe como isso se processa.

Gente de todo o lado aparece no estúdio. Um olheiro sempre podia reparar nele. Ou a Internet. Uma organização internacional sem fins lucrativos publicou um vídeo dele a cantar, no ano passado, no Facebook.

Obviamente, sonha com regressar a Boni, a sua antiga aldeia no Mali, onde a família criava vacas e cabras. Adora Ouagadougou, mas teme o que possa acontecer a seguir. Está cansado de fugir da guerra.

“É a tua vez de treinar”, grita um professor. Abdoulaye pula para a pista. A batida começou. Fecha os olhos. Está num palco em Paris ou Nova Iorque.