Crítica

A caminho do Quinto Império

Ricardo Neves-Neves usa o absurdo, até o bizarro, para explorar os lugares-comuns característicos dos portugueses, seus mitos históricos e ódios de estimação: um espectáculo de um virtuoso malabarismo.

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ESTELLE VALENTE
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Está tudo explicado: Espanha só decidiu anexar Olivença em 1801 porque lá, escondida numa igreja, estava a sétima bola de cristal, artefacto sem o qual Portugal não poderia reconstruir o corpo do dragão surgido numa aparição ao rei Afonso I durante a Batalha de Ourique, assim juntando os objectos mágicos capazes de impedir o Juízo Final e realizar o Quinto Império e deixar o país a mandar nisto tudo. Confuso? Ora, ainda nem apareceu Nossa Senhora, nem o Bandarra, quanto mais a campeã de videojogos macaense e Mary Poppins.

O que move a acção da comédia musical A Reconquista de Olivenza, engendrada por Ricardo Neves-Neves (n. 1985) e o compositor Filipe Raposo (n. 1979) – repetindo a frutuosa colaboração em Banda Sonora (2018) –, espectáculo pejado de influências e referências à cultura pop a que não faltam uma espécie de momento Marvel nem Bip Bip e o Coiote; o que move a acção, escrevia, para além de uma refinada e desabrida invenção da História, acontece uns séculos depois. Estava a actual Rainha de Portugal (Sílvia Filipe) a dormir, quando, sem aviso, uma Nossa Senhora e o poeta-profeta Bandarra lhe invadem o sonho para informar que o Apocalipse está marcado para o seu reinado. Para o impedir, como no Dragon Ball inspirador desta rábula, é preciso conservar a posse das sete bolas de cristal. O que tem de ser feito depressinha, pois os espanhóis já estão a caminho. 

Dirigindo o espectáculo como um circo de três pistas, sempre em movimento, rodopiando como um caleidoscópio, as canções a surgirem no sítio certo, a música acentuando as trapalhadas mas também os momentos de ternura  como quando as infantas de Portugal e Espanha se embeiçam e os infantes das duas nações caem nos braços um do outro , Neves-Neves usa o absurdo, até o bizarro, para explorar os lugares-comuns característicos dos nacionais, seus mitos históricos e ódios de estimação – sejam eles D. Sebastião ou Beatriz Costa ou, genericamente, os espanhóis –, com grande contribuição do imaginativo cenário de Catarina Barros e da firme direcção de orquestra pelo maestro Cesário Costa.

Voltando ao assunto. Para vencer Espanha nesta demanda, a Rainha precisa de aliados. Que encontra, logo que cruza o Tejo e negoceia com os representantes da Margem Soviética, entretanto inspirados por uma aparição de Álvaro Cunhal. Convence o Califa de Alcácer do Sal (David Pereira Bastos), as Nossas Senhoras de Fátima, de Guadalupe e de Lourdes (Sandra Faleiro, Tânia Alves, Teresa Coutinho), saca o apoio do Imperador da China e, por conta do Tratado de Windsor, de Inglaterra. E lá vai esta tropa muito fandanga a caminho do Alentejo, em carro eléctrico e séquito de trotinetas, até chegar a Vila Viçosa onde, depois de um piquenique, prepara o ataque final. E, quando, depois de muitas peripécias, raptos e incursões africanas, estava tudo a correr tão bem, eis que o inimigo abre o ralo do Mediterrâneo. Não fora o sacrifício de Bubu (Márcia Cardoso), comandante do exército real…

Com 22 actores em palco, 16 músicos no fosso da orquestra, um cenário elaborado e o habilidoso desenho de luz de José Álvaro Correia, o encenador joga os elementos cénicos como um virtuoso malabarista, usando o seu texto como suporte de um espectáculo voluptuoso onde não cabe uma ponta de nacionalismo, mas onde se encontra um visão distanciadamente livre e libertária dos tiques e das manias dos portugueses e dos seus deslumbramentos.