Opinião

O vírus da direita populista

A recente sondagem que aponta para um significativo crescimento do Chega deve fazer soar o alerta. Tempos preocupantes.

A sociedade portuguesa tem sido até agora considerada um exemplo raro na Europa onde não existiam partidos e movimentos de cariz fascista. Esse panorama começa a mudar. Um dos mais conhecidos teóricos do populismo (Cas Mudde, On Extremism and Democracy in Europe, 2017) considera que a principal luta do neofascismo é agitar as bandeiras da corrupção, insegurança e imigração. Ao negar a existência de interesses distintos no seio da população, impõe uma noção monolítica de “povo” como sinónimo de “pureza”, contra uma “elite” alegadamente corrupta. Essa é desde logo uma premissa que neutraliza a possibilidade de compromisso e a recusa do diálogo e busca de consenso, princípios básicos da cultura democrática. A visão maniqueísta e polarizada da esfera política encontra eco principalmente junto dos setores que recusam a política como sinónimo de corrupção e abuso.

O paradoxo não é percetível pelo senso comum porque a verborreia radical em que se apoia o discurso populista projeta a ideia de quem se coloca de fora do sistema, apontando baterias sobre algum grupo já socialmente estigmatizado (o imigrante ou o cigano) e, desse modo, iludindo os incautos seguidores, sem perceberem que o “magnetismo” do líder é apenas a máscara que disfarça o propósito central, isso é, alcançar o poder (e portanto para substituir os atuais “políticos” enquanto “elite-apesar-de-tudo-democrática” por uma nova elite que passaria a controlar o poder todo). Alguns estudiosos da matéria (Klaus Dörre, Take Back Control, FSU/ÖZS, Jena, 2019) criaram o neologismo "Ambivalox”, uma síntese de ‘ambivalência’ com ‘paradoxo’, para expressar a natureza destes contramovimentos: por um lado, exigem proteção face ao excesso de mercantilismo, mas, por outro, revelam rejeição do Estado; por um lado, diabolizam as politicas sociais e a “enorme carga fiscal”, mas por outro invocam o advento de um Estado centralista e autoritário. Em suma, Estado democrático, não; disciplina e ordem, em nome da velha moral (autoritária), sim.

A narrativa populista da direita, ao mesmo tempo que idealiza – no seu registo umas vezes sensacionalista e alarmista, outras vezes apenas tacticista e insinuante – um retorno à “essência da nação” enquanto pertença identitária fundamental, e garante último de segurança, apresenta-se para segmentos periféricos e abstencionistas como o refúgio compensatório do défice de reconhecimento social. De acordo com o que se conhece de outras experiências e épocas históricas, a base eleitoral da extrema-direita é composta por diferentes frações de classe, desde o chamado ‘lumpen’ ao que resta hoje da velha ‘aristocracia operária’, mas sobretudo pelos setores atingidos pelo desemprego ou que foram vítimas de transformações rápidas na industria (como aconteceu na Alemanha de Leste com a AfD) sem possibilidades de reconversão.

Porém, os movimentos larvares que emergem hoje em diferentes continentes irradiam não tanto das relações de produção (como o movimento operário e sindical) mas mais da esfera do mercado, fruto também da alienação, guiados por uma pulsão reativa pró-nacionalista e conservadora. O alimento principal do populismo são as subjetividades ressentidas de diversas “subclasses” ou até frações qualificadas da força de trabalho que se digladiam numa luta constante por consolidar a sua posição social, confrontadas com a gestão do endividamento para preservar um status social “sofrível”. Umas mergulhadas no sentimento de abandono, outras impedidas de projetar nos filhos qualquer hipótese de ascensão social, sofrem com o desdém das frações de classe “instaladas”. A exposição repetida ao sensacionalismo mediático e alienante faz o resto. São essas parcelas dispersas da população que se tornam o potencial repositório dos três principais fertilizantes da mentalidade fascista, explorada pelos demagogos: a insegurança, o medo e o ódio. E o reverso disso é o desejo de retaliação. Diabolizar o inimigo sempre funcionou como a melhor forma de congregar a adesão e a projeção das massas na voz de um suposto “messias” salvador.

No caso português, faz sentido lembrar as experiências intensas do pós-25 de Abril onde a participação e o debate ideológico conviveram com a unidade do povo contra o regresso ao fascismo. De facto, essa primeira fase de consolidação da democracia funcionou como a grande “escola” de formação cívica e política, fundada num sentimento coletivo de rejeição do velho regime salazarista. Até muito recentemente, o trauma de 48 anos de ditadura do Estado Novo serviu de pano de fundo na defesa do sistema democrático, com os portugueses a mostrar moderação nas suas escolhas políticas e com maiorias parlamentares a oscilar entre o centro-direita e o centro-esquerda. Os grupúsculos neofascistas (PNR e Nova Ordem Social, essencialmente) nunca alcançaram qualquer influência digna de registo, antes desencadearam reações de repúdio. Porém, o vernáculo populista apareceu de forma recorrente, com destaque para os períodos eleitorais, na voz de líderes e candidatos saídos dos partidos do sistema (Paulo Portas, Santana Lopes e mesmo o atual Presidente da República não deixaram de usar o mediatismo e a narrativa populista, apesar de não se confundirem com a linguagem da extrema-direita), sendo também exemplo disso o atual símbolo-maior do populismo radical de direita: André Ventura.

A recente sondagem que aponta para um significativo crescimento do Chega deve fazer soar o alerta. Talvez seja excessivo afirmar que a culpa do crescimento dos movimentos neofascistas é da democracia e dos partidos de esquerda. Mas seguramente que a corrosão do sistema acelera o desgaste. O certo é que ao longo de 45 anos de democracia as estruturas partidárias, em especial dos maiores partidos, pouco fizeram para se atualizar e atrair para a política as gerações mais jovens. Se nas democracias liberais mais sólidas como o Reino Unido e os EUA se assiste a uma perda preocupante da confiança dos cidadãos nas instituições, em Portugal a tendência vai no mesmo sentido, com os níveis de abstenção eleitoral a crescer preocupantemente, atingindo 51,4% nas eleições para a AR em 2019.

Perante a persistência das assimetrias em posses económicas, com a concentração da riqueza no topo e num país onde as desigualdades são igualmente das mais flagrantes da UE, onde os níveis salariais estão praticamente estagnados há mais de uma década, não nos podemos admirar com a quebra de confiança nas instituições e a desconfiança dos cidadãos face aos partidos. Estes, em vez de perceberem a tendência e de agir em consonância, abrindo-se ao debate, aos movimentos da sociedade civil e à participação alargada dos eleitores, permanecem enquistados no seu próprio universo burocrático e no habitual jogo de interesses. Na sociedade dominam os oligarcas que controlam grupos económicos e o sistema financeiro, alimentando sucessivos casos de corrupção – combustível principal do espetáculo mediático – e tráfico de influências entre os interesses privados e os recursos públicos. Já no terreno partidário persistem e reproduzem-se as lógicas dos aparelhos e o poder sucessório fundado em laços consanguíneos ou afinidades pessoais, enquanto o debate de ideias desaparece da agenda e quem teima em mantê-lo vivo sofre pressões ou é colocado à margem.

Aquilo que nas últimas eleições pareceu constituir um raio de esperança e renovação – a esquerda ecológica e assumidamente europeísta, do partido Livre – revelou-se um fiasco. De um lado, o discurso demagógico e neofascista, sem memória coletiva, que usa e abusa da retórica parlamentar, ao passo que, do outro lado, surgiu uma figura sem capacidade discursiva e que rapidamente caiu no descrédito. Tempos preocupantes.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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