Opinião

Se desprezarmos a Memória, bastará uma acendalha e o fogo será devastador

Na Reforma de 2003, os alunos de Humanidades foram inesperadamente considerados “demasiado jovens para abordar a violência que representava a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto”. “Cansados estavam eles”, dizia-se. “O que queriam era vida e não morte”. Eis o que ouvi.

Todos os nomes, todos aqueles
nomes queimados
juntamente. Tanta
cinza por abençoar […].
Paul Celan (Roménia, 1920- França, 1970)

Quantos suicídios e outros actos de desespero se produziram,
quantos actos de loucura de que eu próprio fui testemunha!
Tudo isto não podia deixar de me impressionar vivamente […]
Aristides de Sousa Mendes (1885-1954)

Não é possível passar pelo dia 27 de Janeiro, sem lembrar 1945 e a libertação de Auschwitz pelas tropas russas, tal como não é possível esquecer, e de modo muito pessoal, os nomes em epígrafe, a par de Primo Levi, Jan Karski ou Klaus Mann, cujas narrativas demonstram bem a barbárie nazi, consentida porque fingidamente ignorada por “grandes estadistas”, sem “determinação moral”. E, no âmbito desta temática, sublinho o desprezo pela Memória que o próprio sistema educativo português tem fomentado, arrastando como dogma o hipócrita e nocivo discurso dos “interesses dos alunos”, tão caro, aliás, e por azar nosso, ao Conselho Nacional de Educação.

É por este último aspecto que inicio o desenvolvimento do presente artigo, lamentando de novo que, ao longo dos anos, nós, professores, tenhamos descurado a nossa unidade, enquanto classe, a qual teria dificultado, por exemplo, a asfixia de determinadas disciplinas. Com efeito, iluminados “peritos”, no seu “anti-intelectualismo delirante”, sob a protecção dos Ministérios da Educação (ME) que se vão sucedendo, proclamaram, tal Darwin em relação “às raças”, a ideia de que há disciplinas, umas mais importantes do que outras, ficando as “mais fracas” ameaçadas na sua sobrevivência. Assim aconteceu quando elegeram as disciplinas de Português e de Matemática como prioritárias, subalternizando a História, a Geografia e a Filosofia, vítimas de um ME que se tem vocacionado, ao longo dos anos, e independentemente de quem o dirige, na destruição da qualidade do Ensino. Muitos de nós, orgulhosos pela preferência dada, não pensámos na sinistra estratégia que se arquitectava e que um dia chegaria a nossa vez. Lembrar-se-ão dos novos professores, assim destinados pelo ME, para leccionar Português ainda que para isso não tenham competência.

Professora de Português e de Francês, leccionei a última disciplina até ao dia em que retiraram os textos literários do seu ensino, substituindo-os por queijos, bandas desenhadas sem qualidade alguma e canções vulgares de letra chã. Mas o mais grave foi o que aconteceu com a disciplina do 12.º ano de Francês, de Humanidades, aquando da famigerada Reforma de 2003, com a agravante, e vem sendo habitual, de as alterações serem feitas pretensamente em defesa dos alunos. Foi assim que o “Enciclopedismo”, a “Segunda Guerra Mundial” e o “Holocausto” desapareceram do programa de Humanidades, um termo a sublinhar, porque é o pensar que está em causa. Com efeito, esses alunos, que, ao longo dos anos, e na sua maioria, sempre haviam demonstrado um imenso interesse pelas temáticas referidas, foram inesperadamente considerados “demasiado jovens para abordar a violência que representava a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto”. “Cansados estavam eles”, segundo diziam ainda, “da violência da guerra quotidianamente transmitida na televisão”. “O que queriam era vida e não morte”. Eis o que ouvi.

Chocante, não é? Mas aconteceu, apesar das críticas, confesso que desenvolvidas a um ritmo lento, demasiado lento, dando azo à drástica alteração. A perversidade imperou, numa manifesta vitória do anti-espírito contra o espírito, lembrando palavras de Klaus Mann em Contra a Barbárie, onde se encontra, entre outros textos, um inteligente e desesperado alerta para a catástrofe e o extermínio que se anunciavam e que não recebeu infelizmente a devida atenção. Um alerta intemporal, porquanto aplicável a toda a situação que evidencie essa luta, independentemente do grau de consequências trágicas que daí possam advir. Hitler, “um aventureiro sem escrúpulos” e “um homem dotado de uma maldade pouco comum”, citando Klaus, chegou ao poder porque não se quis valorizar o seu discurso de ódio, semelhante ao de todos os populistas (e conhecemo-los em geografias várias, incluindo Portugal). Nunca aconteceria, pensou-se. Foram lentos a pensar e a tragédia aconteceu. Daí a grande importância da Memória e da disciplina que a honra – a História –, hoje em dia desprezada por vontade do poder político e inércia de muitos de nós. Ainda que Fernando Pessoa ponha a tónica na Arte, é de igual sabedoria a frase de Cícero, apontando a História como “mestra da vida”.

Empenhados nessa missão de alertar para a reflexão, no sentido do não-esquecimento da barbárie nazi, revelada na sua inimaginável crueldade, estão Ian Karski (1914-2000), um resistente polaco que aceitou testemunhar o genocídio atroz no gueto de Varsóvia, descrito em O Meu testemunho perante o Mundo, e Primo Levi, um engenheiro químico, italiano, que recordou a Resistência dos judeus, intoleravelmente esquecida, e passou pela experiência, dificilmente narrável, de Auschwitz (Jan. 1944-Jan.1945), descrevendo-a em Se Isto É Um Homem. No poema que precede a narrativa, Levi escreve: “[…] Meditai que isto aconteceu:/ Recomendo-vos estas palavras./ Esculpi-as no vosso coração/ Estando em casa andando pela rua,/ Ao deitar-vos e ao levantar-vos;/ Repeti-as aos vossos filhos.” […]”. Foi a este meditar, sério e feito de leituras várias, que todo o professor pode proporcionar aos seus alunos, sobre a temática, que se pôs fim. Tudo tem de durar pouco tempo, de ser rápido e rápido de um só dia, para cumprimento, no caso, do calendário evocador de certos acontecimentos históricos, o que significa que não se aprende, ou seja, etimologicamente, não se agarra a si próprio. Como o “que não dura nunca pode ser muito intenso”, facilmente se abrirá caminho a narcisistas, muitos deles viciados no culto da insensibilidade e, quantas vezes, da bestialidade cujo contágio pode ser imediato.

Eles, os sem coração, pululam, na política, na comunicação social e nas redes sociais, traindo-se muitas vezes, orgulhosos da sua conduta, e achando, na sua juventude, prolongada artificialmente, que o futuro está solto do passado e do presente. Pobres de espírito, que não no sentido evangélico, recusam a gravidade do que afirmam ou afirmaram, invocando sempre como desculpa a “descontextualização” das suas palavras, como aconteceu, recentemente, com a bizarra designação de “agiota dos judeus” para Aristides de Sousa Mendes. Alguém que foi manifestamente um exemplo de desobediência civil, não olhando às desastrosas consequências daí decorrentes, não só a nível profissional como familiar, e que ainda espera que o Ministério dos Negócios Estrangeiros elogie e considere como legítima a sua DESOBEDIÊNCIA a Salazar. Mas não, eles acreditam-se cristãos e no alto da sua eterna juventude aproveitar-se-ão do Cristianismo, com êxito ou não, sabê-lo-emos mais tarde, para mascarar a ideologia que desejam professar e difundir. São o exemplo dos “jovens” que, e retomo palavras de Klaus Mann, “[optam] pela regressão com o entusiasmo que devia estar reservado para o progresso”, o que, “sob nenhum pretexto, podemos aprovar”.

Primo Levi esperou 11 anos para que o seu livro Se Isto É um Homem (1947), testemunho da terrível experiência de Auschwitz, fosse publicado (1958). As razões apontadas centravam-se na impossibilidade de se acreditar no que descrevia. O mesmo aconteceu com “grandes estadistas”, “povos e governos aliados”, juntos numa “inacção total”, recusando crer no que lhes era descrito por quem vira “com os [seus] próprios olhos” o horror sofrido pelos judeus, nomeadamente através de Karski ou de Szmuel Zygielbojm, este último, dirigente da União Geral dos Operários judeus, que, na carta datada de 12 de Maio de 1943, antes de se suicidar, escrevera: “Com a minha morte, gostaria de lavrar o mais veemente protesto contra a passividade com que o mundo olha e tolera o extermínio total do povo judeu.” Também Levi, que se suicidou em 1987, quis que na sua campa constasse unicamente o número com que fora marcado em Auschwitz – 174 517, numa última denúncia do gesto “ariano”, a que muitos se aliaram, e sobre o qual deveríamos meditar.

A passividade e o olhar tolerante foram, entre outros, os de Churchill ou os de Roosevelt. “Quando a vitória dos Aliados acontecer dentro de um, dois ou três anos, em nada nos ajudará, porque… já não existiremos!”, dissera a Karski, em Agosto de 1942, o líder da União Socialista Judaica (Bund), Léon Feiner (1888-1945), através de quem Karski pôde ver in loco o horror do que se passava no gueto de Varsóvia. Olhar obscenamente passivo foi também o das tropas russas, em Setembro de 1944, ao não intervirem, apesar da sua proximidade (assim eram as directivas políticas), na luta desencadeada, em vão, pelo Exército Clandestino Polaco, para a libertação de Varsóvia.

Primo Levi, na introdução ao livro referido, afirma “poder acontecer que muitos, indivíduos ou povos, julguem […] que todos os estrangeiros são inimigos”, sendo que “esta convicção jaz no fundo dos espíritos como uma infecção latente; […]”. Temos experiência, porque lamentavelmente demasiado repetida, da expressão que nós próprios sublinhámos. Bastará uma acendalha e o fogo será devastador. Por isso urge tanto não tolerar mais o intolerável, meditar sobre o que aconteceu e acreditar igualmente no coração dos homens.

“[…] o poema pode ser uma garrafa lançada ao mar, abandonada à esperança – decerto muitas vezes ténue – de poder um dia ser recolhida numa qualquer praia, talvez na praia do coração.” (Paul Celan).

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