Incêndio na Madeira: vento que chega de África ajuda a explicar o fogo

Temperatura elevada, humidade reduzida e vento forte. Assim se alimenta um incêndio que dura há mais de 24 horas na Madeira.

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Imagem de arquivo Miguel Manso

Na Madeira, é conhecido por ‘Tempo de Leste’, e pode ocorrer em qualquer altura do ano. O vento sopra forte do Norte de África, trazendo suspensas areias do deserto. O céu fica estranho, com tonalidades vermelhas. As temperaturas sobem e a humidade, normalmente mais elevada, cai a pique.

Estas condições ajudam a explicar as preocupações com um incêndio florestal que começou na madrugada de segunda-feira, pelas 5h30, e continuava activo, mais de 24 horas depois, na freguesia da Ponta do Pargo, concelho da Calheta, no extremo Oeste da Madeira.

Para o local, ao longo desta terça-feira, foram sendo direccionados os meios de socorro da região autónoma. Os bombeiros da Calheta, primeiro. Depois os dos concelhos vizinhos. GNR, Cruz Vermelha Portuguesa juntaram-se durante a tarde, e o Serviço Regional de Protecção Civil montou quartel na freguesia. No total, de acordo com o último balanço, estavam na zona perto de meia centena de bombeiros e 20 viaturas.

Os danos, para já, não são consideráveis. Há palheiros queimados, é certo. Terrenos de pasto destruídos, também. Mas bombeiros e populares conseguiram evitar males maiores, e impedir que as chamas atingissem habitações. Ficou sim, um enorme, enorme susto quando o fogo desceu da montanha e andou por entre o casario disperso, chegando bem perto do centro da freguesia.

Miguel Albuquerque, o presidente do governo madeirense, deslocou-se à Ponta do Pargo no final da tarde e procurou tranquilizar a população, prometendo para o dia seguinte (esta quarta-feira) a visita de técnicos e do secretário regional da Agricultura, Humberto Vasconcelos, para fazer um levantamento dos danos nos terrenos e nos canais de distribuição de água atingidos.

“O fogo”, foi repetindo o chefe do executivo madeirense, “ainda não está debelado”, e por isso os meios vão permanecer no local durante a noite. “Tivemos aqui condições muito complicadas, com uma humidade abaixo dos 30%, temperaturas que atingiram, nesta zona, 28 graus e ventos na ordem dos 40 a 50 quilómetros por hora”, explicou, dizendo que a principal preocupação foi impedir que o fogo atingisse residências.

E os meios aéreos, fazem falta? – quiseram saber os jornalistas. A Madeira tem, desde 2018, a expensas do Orçamento Regional, lembrou Albuquerque, um helicóptero de combate a incêndios durante quatro meses, no período mais quente do ano. Custa 1,2 milhões de euros por ano, e tem sido uma reivindicação do Funchal que seja o Estado a suportar esse encargo.

“A nossa ideia é, no futuro, termos o helicóptero todo o ano e era bom que alguém nos ajudasse no pagamento”, disse Albuquerque, mostrando-se convencido que, ao nível da Protecção Civil, será possível chegar a um acordo com a República.

Neste caso particular, ressalvou, dada a intensidade do vento, o helicóptero talvez não fosse de grande ajuda, mas a presença permanente de meios aéreos na região é uma prioridade. “Temos de começar a considerar já a potencialidade de termos um meio aéreo sobretudo para o socorro em veredas e percursos pedestres”, adiantou.

E se o ‘Leste’ é o responsável por este incêndio estar a prolongar-se no tempo – e por outros pequenos fogos que têm surgido pela ilha nestes dias –, na Ponta do Pargo a origem, pensa a Polícia Judiciária, que lá esteve durante a manhã, pode ter sido criminosa. A hora a que o fogo começou, de madrugada, e o local, floresta, estão na base das suspeitas.