Putochinomaricón na passarela da Mercedes-Benz Fashion Week Madrid.
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Putochinomaricón na passarela da Mercedes-Benz Fashion Week Madrid. Instagram / @putochinomaricon

#IAmNotAVirus: movimento denuncia o racismo antiasiático em tempos de coronavírus

A hashtag #IAmNotAVirus está a circular nas redes sociais, em várias línguas, para reportar situações de abuso e xenofobia sofridas pela comunidade asiática a propósito do surto do novo coronavírus.

Chenta Tsai Tseng – músico e arquitecto mais conhecido pelo nome artístico Putochinomaricón – passou pela mais recente edição da Mercedes-Benz Fashion Week Madrid, que decorreu entre os dias 28 de Janeiro e 2 de Fevereiro, mas na passarela não foi o outfit que mais chamou a atenção. No peito descoberto, o taiwanês escreveu “I am not a virus” (“Eu não sou um vírus”), frase transformada em hashtag para denunciar o preconceito de que, a propósito da epidemia do novo coronavírus, a comunidade asiática está a ser alvo.

El País relata que este movimento, que começou a circular como #JeNeSuisPasUnVirus, nasceu a 27 de Janeiro, e especula-se que tenha surgido como resposta ao jornal local Le Courrier Picard, que escreveu uma manchete na qual aludia ao surto de coronavírus como uma “peste amarela”. A documentarista e actriz francesa Amandine Gay publicou no Twitter o texto de uma “camarada adoptada” – que não quis revelar a sua identidade para fugir à “perseguição antiasiática que denuncia” –, onde se lê que este caso de emergência global de saúde pública tem permitido a proliferação de um “discurso racista nos meios de comunicação e nas redes sociais”. A pessoa anónima – que partilhou uma fotografia onde grande parte do rosto se encontra tapado por um pedaço de papel com a hashtag nele escrita – criticou a ideia de que a discriminação desaparece se simplesmente não se falar do assunto. E sublinhou: “O pior vírus é o do racismo sistémico.”

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Putochinomaricón na passarela da Mercedes-Benz Fashion Week Madrid. Instragram / @putochinomaricon

A hashtag está a ser usada, em várias línguas, para denunciar situações de abuso em diferentes zonas do mundo. “As pessoas são insultadas e expulsas dos transportes públicos por serem asiáticas. Não estamos a falar apenas de piadas ou ódio nas redes sociais. A discriminação também acontece na vida real”, salientou a jornalista francesa Linh-Lan Dao. A ilustradora Quan Zhou Wu, que publicou no Instagram uma fotografia em que aparece à porta do Ministério de Assuntos Exteriores, União Europeia e Cooperação com o cartaz “No tengo el coronavirus” (“Não tenho coronavírus”), assinalou que o mundo precisa de revelar solidariedade e não de fazer da China um “carrasco”.

Os protestos online sobem de tom num momento em que vários países estão a proibir a entrada de cidadãos chineses e a cancelar viagens de avião para o país onde surgiu a epidemia. Isto apesar de a Organização Mundial de Saúde considerar que tais restrições ao tráfego internacional são “desnecessárias” e frisar que é essencial “evitar acções que promovam o estigma”.

A Reuters afirma que o restaurante parisiense Comme au Vietnam tem testemunhado uma série de “incidentes xenófobosdevido ao surto de coronavírus. A agência noticiosa refere que alguns clientes perguntam a funcionários vietnamitas se são chineses, com um ar simultaneamente desconfiado e preocupado, ao passo que Pascal Corlier, dono do estabelecimento, esclarece que esta “paranóia sem fundamento” levou a um declínio acentuado na receita do negócio no primeiro mês de 2020.

Igualmente merecedora de contestação foi uma publicação entretanto apagada pela Universidade da Califórnia em Berkeley, em que a instituição aponta para a xenofobia como uma das possíveis “reacções comuns” das pessoas no seguimento da propagação do novo coronavírus. No Twitter, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas escreveu que “não há nenhuma quantidade de medo que possa tornar aceitável a discriminação contra pessoas de ascendência asiática”.

Segundo o mais recente balanço levado a cabo pelas autoridades de Pequim, o novo coronavírus já causou mais de 20 mil infecções e provocou 426 mortes. A maioria dos casos diagnosticados ocorreu na China, nomeadamente na província de Hubei.

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