Opinião

Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais à direita do que eu?

O CDS tem hoje mais concorrência e bem mais feroz. À direita do PSD havia, entre 2015 e 2019, 18 deputados — todos centristas. Actualmente, há apenas sete e estão distribuídos por três partidos.

Escolhi um título provocatório para dar a este artigo porque é o que melhor parece resumir a guerra que se vive no espectro político mais à direita, entre os partidos com assento parlamentar. Como se, até aqui, a direita não tivesse dono. Como se fosse urgente ocupar o lugar que até agora era ocupado por um muro (aquele muro que Paulo Portas dizia estar para lá do CDS).

Nas últimas semanas sucederam-se ou foram recuperadas afirmações que nos projectam para um “concurso” ao jeito da pergunta que a madrasta da Branca de Neve fazia constantemente ao seu espelho mágico. “Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais belo do que eu?”

Só que não é de beleza que se trata agora. Agora, trata-se de ser a voz da direita. Com o PSD temporariamente encostado ao centro — onde se ganham eleições, como acredita Rui Rio — os centristas entendem que chegou a hora de voltarem a ocupar o trono mais à direita, sozinhos. O líder recém-eleito promete devolver a “identidade” ao partido e torná-lo, ao mesmo tempo, mais conservador e sexy. O CDS voltará a identificar-se como o partido da família tradicional, o que assume a defesa da vida, da concepção até à morte, o que não se importaria de voltar a criminalizar o aborto, que defende que o casamento é entre um homem e uma mulher e que desaprova a adopção por casais homossexuais.

“Somos um partido que é de direita sem complexos e sem tibiezas, mas não passará os dias a dizer que o é”, disse Francisco Rodrigues dos Santos. “Sejamos claros, à direita, lidera o CDS”, acrescentou. Rodrigues dos Santos sentiu necessidade de assumir este discurso com toda a clareza porque, como se viu na sequência das eleições legislativas de Outubro, o CDS tem hoje mais concorrência e bem mais feroz. À direita do PSD havia, entre 2015 e 2019, 18 deputados — todos centristas. Actualmente, há apenas sete e estão distribuídos por três partidos: CDS (cinco), Iniciativa Liberal (um) e Chega (um).

O novo líder quer travar a sangria e relocalizar o CDS. Mas a luta que se antecipa pode ser fatal porque o espaço que o CDS conservador em tempos ocupava também se deslocou. E como se não bastasse o facto de esse espaço ter novos inquilinos, a verdade é que a estratégia comunicacional dos partidos recém-chegados é aguerrida e causa danos. Ainda recentemente, uma sondagem da Intercampus, cujo trabalho de campo foi feito antes do congresso centrista de Aveiro, punha o Chega bem à frente do CDS (e também acima do PAN) e a medir forças com a CDU. Os centristas surgiam aliás atrás da Iniciativa Liberal. 

Como dizia Nuno Morais Sarmento ontem à TSF e ao DN, “se o CDS quiser cair na asneira de fazer o campeonato do Chega, está sempre a perder, porque o Chega dobra a parada. Diga ele o que disser, o Chega diz a dobrar.” O vice-presidente do PSD não o disse, mas estaria a referir-se às declarações do deputado André Ventura a propor que a parlamentar do Livre (que entretanto perdeu a confiança política do partido) fosse “devolvida ao seu país de origem”. 

Será sempre difícil e indesejável para um partido do arco da governação entrar nesta competição. Não vale tudo para ser sexy.

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