Vinte cidadãos repatriados de Wuhan ficam em quarentena voluntária e sem visitas

Governo decidiu, por agora, que os 18 portugueses e duas cidadãs brasileiras que foram repatriados da China ficarão concentrados em instalações do Hospital Pulido Valente e do Parque da Saúde, em Lisboa.

Wuhan
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LUSA/MARIO CRUZ

Foi uma autêntica odisseia o processo de repatriamento de 18 portugueses e duas cidadãs brasileiras que estiveram retidos durante vários dias na cidade de Wuhan, o epicentro do surto da nova estirpe de coronavírus. São, afinal, 20, incluindo dois diplomatas da embaixada portuguesa em Pequim, e todos aceitaram ficar em “isolamento profiláctico” e sem hipótese de visitas, mesmo controladas, ao longo de duas semanas no Hospital de Pulido Valente e em instalações do Parque da Saúde, em Lisboa, explicou a ministra da Saúde em conferência de imprensa na noite de domingo.

Todos terão anuído, assegurou Marta Temido, uma vez que a lei portuguesa não prevê a quarentena obrigatória de pessoas não-doentes, ao contrário do que acontece noutros países. Além de 16 portugueses (e não 17, como inicialmente tinha sido anunciado), foram transferidas de Wuhan duas cidadãs brasileiras “que também estavam na China e acompanharam os nossos compatriotas”, além dos dois diplomatas portugueses, especificou a governante, ladeada por quatro secretários de Estado (Saúde, Negócios Estrangeiros, Defesa e Protecção Civil) e a directora-geral da Saúde.

No voo de 14 horas que os transportou de Wuhan até França, viajaram 250 cidadãos de três dezenas de países europeus e 20 ficaram retidos numa base militar francesa perto de Marselha por apresentarem sintomas de possível contágio. Os portugueses não estiveram em contacto com estes passageiros no enorme avião que os transportou, um Airbus A-380, mas, ainda assim, e por um princípio de precaução, ficarão neste isolamento voluntário nas instalações preparadas para os receber (13 quartos individuais no Pulido Valente e outros dez no Parque da Saúde). No Porto, está também a postos o Hospital Militar para receber os do Norte, mas tal não se afigura necessário, para já. “Este foi o último troço de uma longuíssima viagem”, enfatizou a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros, Teresa Ribeiro. 

Assegurando que houve “tranquilidade na abordagem da medida preventiva” que coloca os repatriados de Wuhan em isolamento, Marta Temido frisou que esta é uma medida “que está em linha com o que está a ser realizado por outros países" e se fundamenta na “fase epidémica" e de “contenção" decretada a nível internacional. Aliás, recordou, os portugueses já “estavam habituados [ao isolamento] em território chinês”, onde passaram vários dias retidos em casa. Desta forma, acrescentou, podem ter também um melhor acompanhamento pelos serviços de saúde”. O isolamento deverá durar 14 dias (o período de incubação da doença até ao surgimento dos primeiros sintomas) e será efectuada “vigilância activa” por parte dos profissionais de saúde duas vezes por dia. 

No momento em que estava ainda em curso um inquérito epidemiológico aos repatriados por uma equipa da Sanidade Internacional no Aeroporto de Figo Maduro, onde aterraram a bordo do C-130 da Força Aérea que os foi buscar a Marselha, a ministra explicou que, se fosse suscitada qualquer dúvida durante este processo, esta seria esclarecida através de contacto telefónico da linha de apoio ao médico da Direcção-Geral da Saúde (DGS). “A sua eventual validação médica determinará que o caso seja enviado seguindo o protocolo de transporte para um dos hospitais de referência”, especificou.

Novos testes

Depois de terem sido sujeitos a exames à saída da China, que se revelaram negativos, os 20 voltam a ser testados cá. No Pulido Valente serão feitas colheitas de material biológico que devem ser analisadas ainda na madrugada de segunda-feira no Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa). Em poucas horas será possível perceber se algum deles está infectado.

Ao longo do isolamento, caso se suspeite de que algum deles esteja infectado pela revelação de vários sintomas, será transportado de imediato para o Curry Cabral, hospital de referência para os casos confirmados num eventual surto do novo coronavírus em Portugal (os outros são o S. João, no Porto, e o D. Estefânia também em Lisboa e destinado a crianças). Nos serviços de doenças infecciosas destes hospitais há quartos de pressão negativa (com sistemas de ventilação que não permitem que o ar escape), onde os casos suspeitos validados pela DGS ficam internados até chegarem os resultados das análises do Insa. Estes hospitais apenas internam casos suspeitos validados pela DGS e doentes.

Instada a explicar por que razão um avião com passageiros chineses aterrou no sábado em Ponta Delgada, depois de lhe ter sido recusada a aterragem em outros países, a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, sublinhou que nenhum deles vinha de Wuhan. E adiantou que foram as autoridades alfandegárias açorianas a contactar as autoridades de saúde, que efectuaram um inquérito epidemiológico e avaliaram a história clínica dos passageiros. Graça Freitas assegurou que nos aeroportos portugueses se está a efectuar o que é recomendado pelas autoridades de saúde internacionais e que “não há indicação para fazer rastreio à entrada”. 

PÚBLICO -
Aumentar

A China elevou este domingo para 304 mortos e mais de 14 mil infectados o balanço do surto de pneumonia provocado por um novo coronavírus que foi detectado em Dezembro passado, em Wuhan, capital da província de Hubei (no Centro do país).

As Filipinas anunciaram também este domingo a morte de um cidadão de nacionalidade chinesa, vítima de uma pneumonia causada pelo coronavírus, a primeira vítima fatal fora da China. Além do território continental da China e das regiões chinesas de Macau e Hong Kong, há mais casos de infecção confirmados em 24 outros países, com as mais recentes notificações na Rússia, Suécia e Espanha.

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