The Cave, um hospital nas profundezas da guerra

É um dos documentários nomeados ao Óscar e mostra o dia-a-dia de um hospital numa Síria desfeita — sem comida, sem medicamentos e sem grande esperança de uma vida melhor.

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A médica Amani Ballour (aqui no hospital subterrâneo) viu-se obrigada a fugir da Síria NATIONAL GEOGRAPHIC

Como pode existir um hospital numa cidade que é constantemente bombardeada, em que a morte habita à superfície, em que há ataques químicos e em que a destruição é indiscriminada, matando-se crianças e inocentes ao cair de cada bomba? A resposta está debaixo de terra, e fica à vista no documentário The Cave. Filmado entre 2016 e 2018 com a guerra civil na Síria como pano de fundo, acompanha um hospital subterrâneo improvisado – uma espécie de gruta – na cidade de Ghouta Oriental, chefiado de forma inédita por uma mulher, a médica Amani Ballour. O filme, nomeado para o Óscar de Melhor Documentário deste ano, será exibido na National Geographic às 22h30 do próximo sábado, dia 8, véspera da cerimónia em Hollywood.

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A síria Amani Ballour NATIONAL GEOGRAPHIC

Como se a guerra não bastasse, há outros problemas que chegam ao hospital: sexismo tão explícito que incomoda, como o paciente que diz na cara da médica que ela não pode estar à frente do hospital porque o lugar da mulher é em casa, a cozinhar e a tratar dos filhos ou a mãe que não tem comida em casa para os seus filhos, mas que não pode trabalhar porque seria “mal vista”; a falta de recursos que faz com que se ouça música clássica à falta de anestesia; doentes sem cura e uma guerra sem fim à vista.

A destruição é filmada tanto à superfície da cidade-esqueleto, furada pelos ataques aéreos, mas também nas profundezas do hospital, dos feridos à esperança enferma. O documentário, feito em parceria com a produtora Danish Documentaries, foi realizado pelo sírio Feras Fayaad, também nomeado aos Óscares em 2018 (e vencedor do Emmy) pelo documentário Últimos Homens em Alepo.

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A imagem que abre o documentário NATIONAL GEOGRAPHIC

Antes da exibição do documentário The Cave, a National Geographic transmitirá às 20h55 o vencedor do Óscar de Melhor Documentário do ano passado, Free Solo, que acompanha o percurso solitário de Alex Honnold na subida da rocha El Capitan, no parque norte-americano de Yosemite. Realizado por Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi, na produção do documentário estiveram também os portugueses Nuno Bento e Joana Niza Braga, que integraram a equipa de som.

Dos cinco documentários nomeados para os Óscares deste ano, dois são da plataforma de streaming Netflix: American Factory – sobre a chegada da tecnologia chinesa à indústria norte-americana, uma produção que conta com o apoio de Barack e Michelle Obama – e Democracia em Vertigem – um documentário brasileiro dirigido por Petra Costa sobre a polarização política no Brasil. Estão também nomeados Para Sama (pela cineasta síria Waad al-Kateab que acompanha a cidade de Alepo durante cinco anos) e Honeyland (um documentário da Macedónia sobre a última “caçadora de abelhas” da Europa, realizado por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov).

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A médica Amani Ballour no hospital subterrâneo NATIONAL GEOGRAPHIC

No início de The Cave, o documentário de 1h40 dá-nos meros segundos para nos tirar do sossego de uma cidade destruída com os bombardeamentos, que “transformaram as ruas em campos de batalha”. Milhões fugiram, mas 400 mil pessoas continuavam presas, cercadas pelas forças do regime, na região de Ghouta Oriental. “Não há por onde fugir”, ouve-se Amani no documentário – daí que a ideia de se refugiar no subterrâneo sombrio tenha sido simples.

São imagens fortes de crianças e bebés feridos, pessoas atingidas por mísseis. “Estará Deus mesmo a olhar?”, questiona-se Amani, a médica de 30 anos que gere o hospital e uma das que ficaram para trás (a maior parte são estudantes de Medicina) para ajudar quem precisava. Antes de começar as filmagens, o realizador visitou vários hospitais subterrâneos e ficou admirado por ver que era nestes sítios que homens e mulheres podiam trabalhar em conjunto (talvez até o único lugar em que as mulheres podiam trabalhar).

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O realizador sírio Feras Fayaad NATIONAL GEOGRAPHIC

Em 2011 – altura em que começou a guerra civil na Síria – o realizador Feras Fayaad esteve preso e foi torturado durante 15 meses por causa de um filme sobre um poeta que se tentava exprimir apesar da censura. Em Agosto de 2013, um ataque químico fez com que centenas morressem durante o sono e com que as ruas se enchessem de morte e de feridos que bamboleavam entre a vida e a morte. Nas imagens, Fayaad ficou impressionado com duas médicas que trabalhavam rapidamente para tentar salvar o máximo de vidas possível – uma delas era Amani. “Conseguia imaginar ali a minha mãe, as minhas irmãs, as mulheres que foram torturadas durante o tempo em que estive preso”, conta Fayaad, em comunicado. “Todas as suas histórias convergiam nesta mulher, a doutora Amani, que não estava só a fazer o seu trabalho enquanto médica; estava a desafiar os estereótipos e preconceitos que a sociedade síria tem sobre as mulheres.”