Opinião

Novo CDS: a direita sem medo ou vergonha

Francisco Rodrigues dos Santos considera que, no seu CDS, só homens têm “perfil para o exercício das funções” de direcção partidária, uma posição claramente machista.

O 28.º Congresso do CDS não se limitou a enterrar o portismo na liderança do partido, nem apenas virou à direita. A ruptura que se deu em Aveiro, com a eleição de Francisco Rodrigues dos Santos, significa que o CDS vai passar a assumir-se, sem subterfúgios ou complexos, sem vergonha ou medo, como um partido da nova direita.

Francisco Rodrigues dos Santos procurou, em vários momentos, sossegar os militantes de que, consigo como presidente, o partido segue e respeita a história. Anunciou que chegou o momento de o CDS “se reconciliar com o seu passado e com todos os seus ex-presidentes”. Invocou inúmeras vezes o nome de Adriano Moreira. Garantiu que a sua liderança será uma “síntese dessa nova direita de Manuel Monteiro, de Paulo Portas, mas também de Lucas Pires”. Afirmou que “a assinatura” do CDS, consigo à frente, “é, e sempre foi, a democracia-cristã, aberta a correntes liberais e conservadoras”. 

A verdade é que quer na atitude com que assume o seu conservadorismo, quer nas técnicas populistas a que recorre, Francisco Rodrigues da Silva está longe da forma com Adriano Moreira ou Manuel Monteiro manifestavam o seu conservadorismo. Assim como está distante do populismo que Manuel Monteiro estreou, enquanto líder, e a que Paulo Portas tantas vezes recorreu.

A ruptura que o novo líder do CDS representa é fruto do país político de hoje. Francisco Rodrigues dos Santos é genuinamente um representante de uma nova geração que não tem complexos, vergonha ou medo em se assumir como claramente de direita. E isso é demonstrado pela forma como manifesta o seu conservadorismo e anuncia de forma cristalina que usará meios populistas. Prova disso são a sua direcção e as suas intervenções no congresso.

O CDS sempre teve um pensamento conservador em questões civilizacionais. Embora com dirigentes e deputados que até chegaram a votar ao arrepio da indicação da direcção, na aprovação de leis que reconheceram direitos individuais, como a despenalização do aborto, o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo e o direito de lésbicas e gays se candidatarem à adopção, a linha política e doutrinária do CDS sempre foi contra.

Não é por se opor a estas conquistas civilizacionais que surge ruptura e diferença no pensamento de Francisco Rodrigues dos Santos. Não será, aliás, por acaso, mas pela percepção de que a sua posição em questões de novos direitos individuais é minoritária na actual sociedade portuguesa, que o novo líder do CDS não salientou estas suas posições na moção de estratégia global. E já assumiu esta semana, na TVI e na RTP3, que essas não são prioridades da sua agenda política.

A demonstração máxima de que Francisco Rodrigues dos Santos vive o seu conservadorismo sem medo nem vergonha é a direcção por si escolhida. Os seus sete vice-presidentes são homens, o secretário-geral é homem e dos 49 restantes membros da comissão política só seis são mulheres. Esta escolha não é feita apenas para contrastar com a anterior direcção, em que a presidente era uma mulher, Assunção Cristas, que defende a igualdade de género. A razão é mais profunda e é um claro sinal de como o novo líder do CDS não defende nem aceita a igualdade de género, o que contrasta e choca com uma conquista civilizacional que está já sedimentada na sociedade e na política portuguesas. Por isso, não a pratica, pelo menos no partido, onde a pode ignorar, já que nas listas eleitorais terá de respeitar a representatividade mínima de 40 %, que a lei impõe.

O próprio Francisco Rodrigues dos Santos assumiu a sua escolha como um statement, ao explicar aos jornalistas que a composição da sua direcção obedece a “critérios de perfil para o exercício das funções” e que esta “era a melhor equipa”. Conclusão: Francisco Rodrigues dos Santos considera que, no seu CDS, só homens têm “perfil para o exercício das funções” de direcção partidária, uma posição claramente machista.

Quanto ao uso de técnicas populistas, o novo líder do CDS anunciou-as sem nenhum pudor. Já tinha dado um sinal em entrevista ao PÚBLICO na campanha interna. Mas, no congresso de Aveiro, logo na intervenção de apresentação da sua moção de estratégia global, foi explícito ao confirmar que não substituirá Cecília Meireles como segundo candidato a deputado pelo círculo eleitoral do Porto, justificando a sua decisão de não se sentar na Assembleia da República com o argumento claramente populista: “A minha assembleia será o país”.

No mesmo discurso, assumiu também que pretende usar as redes sociais para transmitir a sua mensagem e, assim, passar por cima dos jornalistas, enquanto mediadores entre os protagonistas políticos e a sociedade. Uma promessa a que voltou no discurso de encerramento do congresso: “Seremos um partido sexy, não por defendermos os valores que não são nossos, mas por utilizarmos estratégias de comunicação acutilantes, disruptivas e actuais”.

Francisco Rodrigues dos Santos vai utilizar as redes sociais como suporte de transmissão de mensagem política, tal como fazem os actuais populistas de extrema-direita e de extrema-esquerda.

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