Opinião

Uma “geringonça” de direita

Rui Rio não hesitará em propor a formação de um Governo monopartidário do PSD, com o apoio parlamentar do CDS, do Chega e da Iniciativa Liberal.

O livro chama-se Linhas Direitas-Cultura e Política à Direita, foi coordenado por Miguel Morgado e Rui Ramos, e é constituído por dezenas de pequenos ensaios assinados por figuras da vida intelectual, científica e política identificadas com um pensamento liberal e/ou conservador. Impressiona pela quantidade e pela qualidade. Qualquer pessoa de esquerda, como é o meu caso, que não cultive a hemiplegia da razão só pode reagir com agrado a esta manifestação de fulgor criativo de um espaço político imprescindível ao debate democrático. Vale a pena ler para se superar definitivamente a representação caricatural de uma direita obtusa que alguns sectores da extrema-esquerda procuram sistematicamente promover. Depois dessa leitura ficamos devidamente elucidados quanto à natureza, à densidade e, nalguns casos até, à surpreendente singularidade que identifica o universo cultural dos mais proeminentes representantes do pensamento de direita no nosso país. Só por isso a iniciativa de Miguel Morgado e de Rui Ramos merece ser aplaudida.

Há, porém, uma interrogação que inevitavelmente se coloca perante o conteúdo desta obra: até que ponto esta linha de pensamento político tem correspondência e pode aspirar a qualquer tipo de materialização prática no espaço partidário que assegura a representação dos segmentos eleitorais tradicionalmente identificados com a direita. O tema reveste-se de particular acuidade pela circunstância do PSD e do CDS terem escolhido nos últimos dias as respectivas lideranças, com o que isso significa no plano das opções programáticas, estratégicas e discursivas. Como procurarei demonstrar, a relação entre o domínio do pensamento constante do livro referido e o plano da actuação política concreta dos partidos políticos de direita está longe de ser linear e directa. Bem pelo contrário, antevê-se problemática e bastante sinuosa. Vejamos porquê.

Ao optar pela eleição de Rui Rio o PSD reafirmou a vontade de se colocar ao centro, num alinhamento doutrinário relativamente híbrido que assenta na confluência de várias heranças doutrinárias, que vão desde uma social-democracia mitigada até um liberalismo moderado integrando, ainda, alguns aspectos do personalismo cristão. Rio chega ao ponto de recusar a identificação linear do PSD com o centro-direita reclamando-se de um posicionamento rigorosamente ao centro. Numa perspectiva estritamente doutrinária esta orientação não colide com o essencial da história do partido. Foi, aliás, o seu fundador, Francisco Sá Carneiro, quem promoveu a mudança do nome desta organização política de modo a realçar a sua componente social-democrata. Com Balsemão, Mota Pinto e até mesmo Cavaco Silva essa linha de orientação permaneceu praticamente inalterada. Terá sofrido ajustamentos com Durão Barroso e Santana Lopes e só foi verdadeiramente alterada no período em que Passos Coelho liderou o partido. Contudo, mesmo nessa ocasião o PSD não renegou aspectos essenciais da sua identidade multiforme e muito próxima do centro político. Onde se notam algumas divergências que singularizam a actual liderança é mais nos planos estratégico e discursivo. Convirá tentar perceber se isso decorre de uma efectiva diferença atinente à personalidade política de Rui Rio ou resulta, sobretudo, de uma percepção de que as circunstâncias presentes são substancialmente distintas das passadas. Admito a importância destes dois factores mas parece-me mais relevante o segundo do que o primeiro. Rio sente que o país está social e politicamente inclinado para a esquerda e que o PSD só poderá ter sucesso se conseguir atrair um eleitorado central que se tem revelado permeável a alguns valores da esquerda. Na sua óptica, se não conseguir alcançar este objectivo o país continuará a contar com uma maioria de esquerda no Parlamento. Nessa perspectiva ele poderá até abdicar de algum eleitorado mais à direita, não vendo com maus olhos a fixação do mesmo no novo CDS que saiu do Congresso do passado fim-de-semana ou até mesmo no Chega.

Contrariamente ao PSD, o CDS escolheu o caminho de uma certa radicalização programática, estratégica e discursiva à direita afastando-se de qualquer tentação centrista. Elegendo um jovem dotado de inequívocas capacidades tribunícias o CDS tentará reerguer-se com um discurso muito conservador, em permanente confrontação com a agenda fracturante do Bloco de Esquerda e visando a sedução de um eleitorado muito afastado das referências culturais presentemente dominantes. Irá travar um combate difícil com o Chega que, na sua infinita propensão para a charlatanice política, vai dando inquietantes sinais de crescimento.

Estamos, assim, perante uma nova arrumação das forças políticas de direita com drásticas consequências do ponto de vista da celebração de entendimentos políticos entre elas. Não só parece totalmente excluída a possibilidade de uma coligação pré-eleitoral como nem sequer se afigura provável a formação de um Governo com participação activa de todos os partidos da direita, mesmo no caso em que esta disponha de maioria na Assembleia da República. É aqui, aliás, que reside a grande novidade histórica. Como resolver este problema? De uma forma muito simples: se essa situação se realizar, a da existência de uma maioria parlamentar de direita, Rio não hesitará em propor a formação de um Governo monopartidário do PSD, com o apoio parlamentar do CDS, do Chega e da Iniciativa Liberal. Estes terão que sustentar tal Governo, sob pena de serem acusados de favorecer os partidos de esquerda. No fundo, o resultado da simultaneidade da opção centrista do PSD e da extrema polarização de uma parte significativa da direita portuguesa terá como consequência a criação de uma espécie de nova “geringonça” agora aplicada a este espaço político.

Claro que no dia, se esse dia surgir, em que Rui Rio se dispuser a governar com o apoio parlamentar de um partido como o Chega uma parte significativa da esquerda rasgará as vestes acusando-o de aceitar ficar dependente da extrema-direita. Só que nessa altura Rui Rio lembrará que em circunstâncias análogas António Costa não hesitou em negociar com um partido que nunca condenou o totalitarismo soviético, que continua a falar da “alegada queda do Muro de Berlim” e que não esconde alguma simpatia pelo regime norte-coreano.

Como facilmente se depreende de tudo isto, entre os textos teóricos das Linhas Direitas e um hipotético Governo de centro-direita haverá decerto pontos de contacto mas também não faltarão muitíssimas fricções. Só que no fundo, seja à esquerda ou à direita, é sempre isso que acontece.

  

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