Londres e a gentrificação, um (colorido) apocalipse identitário?

Em Londres, existe uma relação entre o graffiti, a propaganda instagramável de multinacionais e o processo de gentrificação em curso. O fotolivro East Ended, do fotógrafo Dougie Wallace, explora essa relação de forma colorida, sagaz e, sobretudo, política.

©Dougie Wallace
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O graffiti ainda é, em muitos locais, encarado como uma forma de vandalismo. Nos anos 70, 80 e 90 era tido como um indício de actividade criminal, promovendo até a desvalorização imobiliária de certas zonas urbanas. Os artistas eram "jovens de capuz, sorrateiros e nocturnos" que veiculavam mensagens anti-sistema, descreve Dougie Wallace no prefácio do seu fotolivro East Ended. "Hoje pintam a descoberto, produzindo a sua obra à luz do dia a partir de andaimes de ferro", compara o fotógrafo, que vive em Shoreditch, Londres.

A imagem da arte urbana "reciclou-se" no início do século e a forma como é percepcionada mudou: o graffiti e os seus artistas passaram a ser respeitados e o género passou a ser visto como moderno, ousado, rebelde, acutilante. "Actualmente, há murais em galerias de arte e museus de todo o mundo", relembra o escocês, em entrevista ao P3. E tardou, é verdade, mas chegou o momento em que marcas como a Gucci ou a Adidas começaram a apropriar-se deste tipo de arte subvertendo-a, adaptando-a a uma lógica comercial que era, inicialmente, "inimiga" desta forma de expressão. "Contratados por grandes multinacionais, esses artistas começaram a intervir sobre a paisagem urbana e a pintar imagens que pudessem servir de propaganda instagramável." E foi assim, diz, que o graffiti contribuiu para a gentrificação do East End londrino. Ou melhor, East Ended, ironiza o fotógrafo no título do livro que a editora Dewi Lewis lançou em vésperas do "Brexit".

Esses murais, "cool, fashion e rebeldes", contrastavam "brutalmente com os cenários de pobreza, com a imagem de pessoas a traficar nas ruas", reflecte Wallace. Subitamente, o que estava errado em Shoreditch não era o graffiti — eram as pessoas. "E a arte urbana de East End tornou-se apelativa, arrojada", conta o fotógrafo. Contra todas as expectativas, "a street art fez gerar interesse imobiliário naquela área e transformou-a numa zona de elevado valor". "Foi", remata, "a sua 'autenticidade' que acelerou o processo de gentrificação". Ditam as regras básicas da Economia que um produto apetecível e escasso verá o preço aumentar e a clientela tornar-se cada vez mais abastada. E foi assim que East End, originalmente habitada pela classe trabalhadora de Londres, mudou de cara. E de mãos. "Os artistas que criaram a arte que está nas paredes e os residentes originais já não conseguem viver na mesma área", que está hoje pejada de turistas. "As excepções são os residentes originais que eram donos das suas propriedades — e que puderam vendê-las a preços premium e os artistas que compraram casa quando ainda era relativamente acessível."

A gentrificação é um fenómeno "complexo e multifacetado", mas consiste, "basicamente, nas comunidades locais versus o capital globalizado". "Levanta questões como 'o que é o progresso?' ou 'que preço devemos pagar por ele e a quem se destina?'. Quem está a comprar todas estas propriedades de luxo e quem é que vive lá efectivamente? Há rumores de que muitos apartamentos estão vazios, o que nos remete para questões relativas à origem da riqueza de quem está a financiar este fenómeno." É por isso que East Ended é um livro sobretudo político, apesar de ser também colorido, por vezes surpreendente, sempre sagaz. As imagens de Dougie Wallace aglutinam a heterogénea população de Shoreditch, os seus visitantes, as suas paredes de luxo e as suas pinturas de protesto. À beira de uma espécie de apocalipse identitário, East Ended.

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Capa do fotolivro <i>East Ended</i>, de Dougie Wallace. Publicado pela Dewi Lewis.
Capa do fotolivro East Ended, de Dougie Wallace. Publicado pela Dewi Lewis. ©Dougie Wallace
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